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O Menino Fernando


Vânia Moreira Diniz


O dia seguinte ao natal talvez seja o mais decepcionante em muitas vidas. Muitos dias antes do natal apreciamos às vezes até sem entusiasmo as luzes e os coloridos, a preparação incessante, os mimos ou objetos caros nas vitrines, o apelo dos comerciantes, conhecendo a lábia que os domina na proximidade de qualquer data importante.

O menino ia olhando as ruas, pezinhos no chão, e rosto brejeiro, parecendo até debochar de todo aquele aparato que reinou durante alguns dias em sintonia com as festas de fim de ano. Não parecia que estava com tanta fome assim, pelo modo com que sorria como que ironizando o próprio mundo.

Seu rosto era bonito, mas existia especialmente nele algo que não se via comumente nos pequenos carentes. Não era revolta, isso não era. A expressão era suave demais para que a mágoa pudesse estar escondida.

Reunira-se finalmente com a turma da rua e cada um comentava de modo peculiar suas próprias impressões sobre dias como esse, igual a outro qualquer.

Fernando inspirado, sorrindo daquele jeito tão disfarçado perguntava aos outros e ouvia sem, contudo dar sua opinião. Existia no menino como um deboche crônico pela vida e pela forma com que ela se apresentava.

-Eu tenho revolta dizia um, por que nem olham para nossa cara, parece que tem medo da presença da gente nas lojas e esses bobões ricos podem fazer tudo que querem.

Os outros concordavam cada um extravasando a dor que lhe ia à alma, acirrada talvez pelos comentários que ouviam dos adultos.

Fernando com seu olhar inteligente apenas acompanhava o diálogo dos amigos, refletindo em como poderiam viver assim com tanta raiva da vida.

Ele gostava de viver, apreciar o mundo, saber que podia andar livremente pelas ruas, sem sapatos, correr, e ir procurando lugares para explorar em seus passeios diários. É certo que muitas vezes sentia fome, e vira a dor nos lugares que costumava freqüentar. Fumara umas duas vezes seu baseado, mas não trocaria nada pela vida que imaginava ter os meninos ricos.

Vinha andando até que deparou com um carro muito bonito que apreciava, mas no qual estava sentada uma criança. Seu rosto de olhos azuis e profundos, o nariz perfeito fez com que ele admirasse o que o “bom trato” pode proporcionar.

Mas não via alegria no rosto do rapazinho enquanto descia do carro cheio de jogos modernos que naturalmente ganhara na véspera. Não se importava com isso. Quando acreditava em papai Noel, bem que tivera seus comentários de crítica, mas agora sabia que sua mãe não poderia lhe dar nada do que sonhara.

Já tinha passado o dia de natal, e imaginava que aquele menino não teria a alegria da liberdade nem poderia permanecer tão feliz, dando seqüência aos seus pensamentos, admirando a natureza e podendo tirar da própria sorte seus ensinamentos mais práticos.

Ele sabia fazer de tudo e olhando de longe o garoto pode perceber as lágrimas que desciam por qualquer futilidade que a mãe lhe negara.

Agora compreendia. Agora entendera de forma mais profunda o que o fazia uma criança feliz. Sabia que não tinha mesmo quem lhe ofertasse presentes por mais simples que fossem e sua alegria era extremamente natural.

A percepção apurada lhe confidenciou que jamais choraria por coisas sem importância e que poderia curtir a vida sem tristezas mesmo quando sua barriguinha às vezes reclamasse um pouco mais de comida.

Para tudo havia compensações. A professora do colégio lhe dissera isso e agora compreendera o sentido exato de suas palavras.

Lentamente passou pelas pessoas que estavam ali perto daquela lanchonete elegante e mais adiante comprou um pãozinho e enquanto saciava sua fome imaginava que não era mais dia de natal. Não sabia por que pensara isso. Mas a alegria lhe dominava por um segundo.
 

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