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Um conto de natal, ou
A tentativa de resgatar um espírito perdido


Ana Luiza Libânio

Pressionado pelos costumes, saí em busca de inspiração para uma mensagem de natal. Voltei para casa com sacolas cheias e a carteira vazia.

O que, afinal, é o natal?

Não compreendo. Por muitos anos ouvi meus avós, meus pais e professores falarem de um tal “espírito de natal”. Tenho dúvida se entendi o que queriam me ensinar. Eu ouvia que esse espírito é do bem, da compaixão, da generosidade, ou substantivos semelhantes, mas em suma, o que sempre escutei foi dizer que o espírito natalino era amor.

Naquele dia, o trânsito estava infernal. Carros apostavam corrida para chegar em algum lugar que não soube ao certo qual era, até eu mesmo chegar lá. O “shopping center”. Já no estacionamento, a falta de generosidade tomou conta. Vi jovens estacionarem em vagas para idosos e pessoas, aparentemente sem qualquer dificuldade, pararem grandes carros em vagas para deficientes.

Os elevadores, lotados, precisavam repetir “favor liberar a porta”, enquanto pessoas tentavam decidir quem fica, quem vai. Em geral, os mais velhos ficavam. Os jovens se infiltravam e fingiam que não viam o que acontecia ali.

Foi difícil compreender o que os lojistas informavam nas vitrines. Frases como “Summer sale”, “20% off” e outras que não consegui memorizar estavam por todos os lados. Perguntei-me se a mensagem precisa ser em outra língua. Mas e se eu quiser que eles me compreendam? Roupas também carregavam dizeres estrangeiros. O próprio “Papai Noel” veio de outras terras. O “bom velhinho”, coitado, estava dentro de uma roupa tão quente que eu podia ver o suor brotar de seus poros quando cheguei perto para saber se ele tinha alguma mensagem para mim. Sem falar nas botas, luvas e na falta de o que dizer. Aquele senhor somente sabia perguntar o que eu queria receber de presente.

— Uma mensagem.

— Mensagem? Escolha algo. Um brinquedo? Um jogo? Roupas novas? Então fique com essa bala.

Várias vezes fui empurrado por transeuntes inquietos. Cotovelos alheios em minhas costelas, braços nervosos se esbarravam nos meus, respiração acelerada em minha nuca.

Calma, gente! Acho que o lugar fica aberto até mais tarde.


Por fim, entreguei-me à loucura. Acelerei meu passo, entrei em várias lojas e dezenas de vezes tirei meu cartão de crédito da carteira.

Em casa, nada me faltava. Eu tinha algumas camisas, mas nas cores salmão e xadrez, última moda, faltavam-me. Meus sapatos estavam novos, mas o último modelo daquela marca que é a melhor para longas caminhadas, ou aquele que faz bem à coluna e o de couro importado faltavam-me. Cremes? Eu tinha um hidratante que há anos usava após o banho, mas eu não sabia que havia um especial para cada sexo, para as unhas, para as mãos, cotovelos. Esses me faltavam. Achava que ter um perfume era suficiente, mas descobri que o noturno, o especial de verão e o “kit” desodorante com perfume me faltavam.

Em uma das lojas a atendente não tinha caneta para eu assinar o recibo do cartão, peguei no bolso a que comprei de um surdo-mudo, no metrô. A mulher riu.

— Caneta de ambulante? Não viu que agora temos canetas de todas as cores, canetas com cheiros, canetas maleáveis. Ai! Nem aceito essas aí. São horríveis.

As coloridas e cheirosas me faltavam. Comprei um arco-iris de canetas.

Quando, sem ter como carregar tanta sacola, resolvi voltar para casa — eu queria escrever com todas as canetas, usar todos meus perfumes, experimentar minhas camisas e meus diferentes tipos de sapatos — a fila para pagar o estacionamento estava enorme.

Perseverei ali. Do telefone, enviei alguns recados para os amigos.

— Roupa nova! Aguardem! Vou arrasar nas festas de final de ano.

Finalmente paguei minha conta — não tinha trocados, mas nem olhei a cara da atendente que também parecia não olhar para mim, para dizer que eu sentia muito não poder ajudá-la — e mais que depressa, fui em direção ao elevador. Não queria andar até o outro lado do shopping, com meus calcanhares latejando e minhas mãos com dificuldade para segurar tantos pacotes. Passei na frente do sujeito de muletas; afinal, essas que ele carrega são bem mais leves que minhas sacolas.

Entrei no carro e saí daquele lugar, sem olhar para trás.

Em casa, não tive onde guardar tanto creme, sapatos, camisas. Sentei-me no sofá a pensar na mensagem que precisava escrever. Tentei em vão me lembrar dos gestos de generosidade, de compaixão e da magia natalina. Busquei entender onde havia me perdido. Teria sido nas roupas quentes de Noel? Ou na facilidade de comprar com o plástico que traz meu nome impresso e me dá status. Afinal, onde estava minha identidade? Por que eu precisava de tudo aquilo? Caí em depressão. Aquelas compras não me bastaram.

Liguei o computador, peguei meu celular e comecei a fotografar minhas aquisições. Precisava sentir orgulho de alguma coisa. Cada roupa, um flash. Fotografei-me em diferentes posições e publiquei tudo em minha rede social; afinal, depois de um longo passeio, eu merecia um pouco da companhia de meus 657 amigos. Sem mais o que fazer e sem sono, sentei-me para ler. Dei muitas risadas, emocionei-me com algumas frases, invejei a situação de algumas pessoas que — que absurdo! Que falta do que fazer! — postavam suas últimas compras, fotos de roupas novas e comentários sobre suas badaladas festas. Eu precisava criticar. Imagine! Essas pessoas não percebem o que estão fazendo? Gastam com o que é supérfluo para mostrar na rede e posar de melhores. Esse povo não dorme? Eles não têm vida social?

Já era madrugada quando desliguei o computador. Empurrei minhas compras para o lado e joguei-me na cama.

E a mensagem de natal?

Ai... não comprei presente para os clientes, esqueci de meus pais, almoço de família... amanhã? Acho que não vou ter tempo para isso, será que devo voltar ao shopping pra comprar uma roupa nova? Mas talvez se eu for com aquele sapato de couro importado, a camisa salmão e uma calça bacana... Calça bacana... será que tenho que comprar uma calça para o almoço, não, provavelmente o pessoal não vai reparar que minha calça é velha, se bem que eles estão sempre tão bem vestidos. É mas eu comprei... Ah! sono... vou ter que tomar outro daquele remédio para conseguir dormir? Uma dose de uísque. Não sei o que está acontecendo comigo, tenho tido muita insônia. É talvez eu tenha que procurar um médico. Fim de ano é assim mesmo... Amanhã vou ver esse negócio da calça eu realmente não posso ir de calça velha. Será que eu deveria procurar alguém? Alguma ajuda? É... acho que preciso de ajuda. Mas antes vou comprar uma calça nova, porque não posso aparecer desse jeito... Ah é... Ainda preciso escrever uma mensagem de natal.

Sequestraram o natal.
Principal suspeito:
O capitalismo.

analuizalibanio@gmail.com