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Feliz Natal, Pai!


Vânia Moreira Diniz


Naquele natal parecia que eu não sentia o barulho que tomava conta de todo o Rio de Janeiro. Tinha dezesseis anos e havia saído precocemente de casa contra a vontade de meus pais e me casara. Estava já esperando minha segunda filha. Sentia falta de minha antiga casa, principalmente da companhia e da conversa animada dele.

Minha mãe tinha querido que eu desse um tempo, nas visitas que fazia constantemente à sua casa, para que ela pudesse se acostumar com minha vida de casada com tão pouca idade. E aproximando-se o Natal, tudo era verdadeiramente triste, quando lembrava os outros, que eu passara em companhia de minha família. Meu coração só pedia que fosse vê-los.

Nada poderia ser superior ao amor que sentíamos, à data tão esperada e querida, às reuniões freqüentes e animadoras e às trocas de presentes. Entretanto sabia que tudo estava ainda efervescente demais, e conhecia o temperamento severo de minha querida mãe. Não lhe tirava a razão de em sua dor, mas minha alma estava completamente em luto pela separação deles.

Andei lentamente pela Avenida Copacabana como nos meus tempos de menina, absorvendo as lembranças, curtindo-as e sentindo uma saudade dolorida e profunda. A figura de Papai Noel daqueles tempos de criança me fazia sorrir docemente e eu estava embalada por aquela recordação, inebriada pelas luzes que cintilavam em meus olhos intensamente.

Foi quando me lembrei de umas palavras de meu pai quanto ao amor que nos unia. Recordei-me da data, porque eu estava cercada de presentes bonitos, enquanto a casa iluminada e a música de Natal tocavam embalando meus sonhos.

Ele me falara do amor que essa data conseguia tornar mais evidente, e disse-me que nada poderia ser superior a esse sentimento, que regia a humanidade apesar de tudo. E que a humildade estava intrinsecamente ligada ao amor.

Fiquei ofegante de emoção pela reminiscência daqueles momentos tão ternos, cuja lembrança eu carregava até aquele momento. Estava perto da casa que eu tinha sido criada. Era só atravessar a rua, andar alguns passos e chegaria lá.

Apressada, as lágrimas a escorrerem pelo meu rosto, pessoas a me perguntarem se eu sentia alguma coisa, que eu ouvia, mas não discernia. Tudo que almejava era chegar em casa. Já bem perto vi alguém vestido de papai-noel, numa loja que sempre o recebia, e foi a única hora que parei, pensando o quanto seria bom que ele existisse. O suposto velhinho me dirigiu uma palavra de carinho e eu continuei os meus passos apressados.

Meu pai estava saindo e, vendo-o, corri até chegar a seus braços que me apertaram ansiosamente, dizendo apenas essas palavras:

— Sabia que você viria. Sabia que viria para o Natal, filha. Eu sabia!

Afastei-me para olhar em seus olhos, e entendi que jamais poderia conter mágoas, quando correspondeu à minha expressão inundada de saudade e amor.

— Feliz natal, pai!

E ele abraçou-me de novo, esquecendo de tirar os óculos que ficaram embaçados pela umidade.
 

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