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Almoço de Natal à Bordello


Luiz Carlos Guedes

Prato principal:
CINGHIALE DEL CAPARE AO MOLHO SALMORIGLIO

Nos idos de 1925, Cesari Mori - Prefeito de Palermo na época de Mussolini - disse: "Um capo se torna um homem de ordem, absolutamente e interessante homem de ordem, depois sente crescer dentro de si um coração terno e exprime amor pela raça humana: se redime, resiste até quando puder. Ou até que algum velho gombah (corruptela americana para companheiro ou padrinho) que ficou como um proletário no ponto de partida, coloque as coisas no lugar... com um tiro de fuzil. Ou até que, pela força dos acontecimentos e dos seus instintos adormecidos, ele reconsidere a oportunidade de não se redimir logo, mas esperar para se redimir quando tudo estiver definido. É assim que aparece o homem super-redimido: uma espécie de Santo Antônio, que, se não é capaz de resistir às tentações como Santo Antônio verdadeiro, ao menos sabe como tirar proveito disso".

Era assim que se sentia, no Natal de 1930, o temido Finocchio Bordello - famoso capo que tinha uma cadeia de bordéis em Boston. A nenhuma das suas garotas era permitido comer com ele, com exceção de Gina, um esplendor, uma santa na aparência, mas grande prostituta na realidade. A sua especialidade - fora do quarto - era agradar seu homem com um delicioso Cinghiale del Capare (Javali do Padrinho) ao molho Salmoriglio. E foi isso que ela preparou para o almoço daquele Natal.

Encomendou ao açougueiro de confiança de Finocchio um espinhaço de javali, comprou na feira dos italianos de Boston folhas de louro, meio litro de azeite de oliva extra virgem, seis limões, além do sal e da pimenta do reino.

Na bancada de mármore da churrasqueira que ficava no amplo jardim da casa de seu "padrinho" e amante, retirou a pele mais grossa do espinhaço de javali, temperou-o com sal, pimenta e salpicou-o com as folhas de louro finamente picadas.

Untou a carne com azeite de oliva extra virgem e colocou no espeto. Na churrasqueira, as brasas do carvão já estavam bem quentes. Chamou um dos empregados do capo e mandou que apoiassem o espeto sobre elas e com uma concha de cabo grande fossem recolhendo a gordura que pingava durante o cozimento e untassem novamente a carne até que ela ficasse bem dourada.

Enquanto isso, foi preparar o molho salmoriglio (molho à base de salmoura e azeite de oliva). Colocou numa tigela 12 colheres de sopa cheias de azeite e com um batedor manual, foi juntando aos poucos água quente, suco de dois limões, duas colheres de sopa de salsinha picada, uma pitada de orégano e o sal. Depois de bater até que a mistura ficasse bem homogênia, cozinhou-a em banho-maria.

Mandou que cozinhassem quatro batatas-doces, um molho de brócolis, duas cebolas e duas cenouras. Feito isso, ordenou que cortassem as batatas-doces em quadrados pequenos, a cenoura em tiras e as cebolas partidas ao meio.

Para montar o prato com a beleza e o requinte necessários ao paladar exigente de Finocchio Bordello, pegou uma travessa de prata, colocou as batatas-doces ao fundo, as meias cebolas uma em cada canto da travessa formando uma cruz, a um lado o brócolis e as tiras de cenoura. Colocou a carne sobre o arranjo e no lado oposto ao brócolis e cenouras colocou fatias de limão com um pouco de chilli.

Finocchio Bordello comeu como um frade. Foi um almoço de Natal inesquecível. Sentiu-se agraciado como se tivesse recebido a benção dos deuses. Como se tivesse recebido a indulgencia de um último pedido.

Antes mesmo da virada do ano, corria à boca pequena na cidade de Boston que Bordello havia sumido e que sua rede de bordéis agora pertencia a um outro capo que vivia em Chicago. Um tal de Al Capone.

 

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