Páscoa e Pessach


Do hebreu Pessach, Páscoa significa a passagem da escravidão para a liberdade. É a maior festa do cristianismo e nela se comemora a Passagem de Cristo - "deste mundo para o Pai", da "morte para a vida", das "trevas para a luz".

Considerada, essencialmente, a Festa da Libertação, a Páscoa é uma das festas móveis do nosso calendário, vinda logo após a Quaresma e culminando na Vigília Pascal.

Apesar de se tratarem de duas festas distintas, a raiz da Páscoa cristã está na Páscoa judaica. No cristianismo, celebra-se a Ressurreição de Jesus. Como faziam os judeus da Galiléia, Jesus subiu para Jerusalém para celebrar o Pessach - a passagem do anjo libertador, que dizimou os primogênitos do Egito, e a fuga pelo Mar Vermelho.

Depois da ceia realizada na quinta-feira, Jesus é aprisionado. Crucificado no dia seguinte, ele teria ressuscitado no raiar do domingo, o terceiro dia, como descreve o 'Novo Testamento'.

As comidas dessa época seriam apenas o cordeiro, que foi associado ao sacrifício de Jesus, e o pão ázimo, transformado em hóstia pela Igreja Católica, feita apenas de farinha e água. Também atravessando os milênios, a bebida ritual continua o vinho, uma vez que a hóstia simbolicamente é o corpo e o vinho o sangue de Jesus, o cordeiro de Deus.

Os demais alimentos e animais que se tornaram símbolos da Páscoa cristã foram incorporados muito mais tarde e quase invariavelmente têm uma origem considerada pagã.
Comecemos pelos ovos. Se hoje, representam a ruptura do sepulcro por Cristo na Ressurreição, a tradição de oferecê-los vem da China. Nesse país asiático, cozinhavam-se ovos embrulhados em casca de cebola em água com beterraba para se obter uma decoração marmorizada. Era o presente oficial da Festa da Primavera.
Na Europa, esse costume principia na França do século XII. Para comemorar a volta do rei Luís VII, que fora lutar na segunda cruzada, a abadia de St. Germain-des-Près deu produtos de suas terras, entre eles ovos.

A perpetuação da cerimônia por três séculos tinha uma data equivocada para a poderosa ordem dos beneditinos daquela época: a Quaresma. Com o aval de Luís XI, os religiosos conseguiram mudar a entrega dos ovos para a Páscoa. A Igreja oficializa, então, o ovo como símbolo pascal no século XVIII.

A idéia de decorar os ovos ocorre nesse mesmo século, por obra de outro Luís, o XV, que solicita ao renomado pintor Jean-Antoine Watteau, autor de 'Les Fêtes Galantes', a decoração de ovos que ofereceria a uma filha. Um capricho? Nada que se compare aos excessos luxuosos do czar Alexandre III, que encomendou ao joalheiro francês Peter Carl Fabergé nada menos que 46 ovos de ouro e pedras preciosas para presentear a esposa, Maria Feodorovna. Esse número correspondia à idade que a imperatriz completaria em 1855. Nesse mesmo período, os ovos já era feitos em outros materiais, como madeira, porcelana, papel e cristal.

As difundidas versões de chocolate foram executadas entre o final do século XIX e início do século XX. Isso porque só em 1828 o produto de origem mexicana se transformaria em guloseima sólida pela mãos de Conrad Van Houten, na Holanda.
Antes disso, o chocolate era usado apenas como bebida, não muito diferente da beberagem que tomavam os astecas quando os espanhóis chegaram à América em 1492.
Segundo alguns registros, os primeiros ovos de chocolate teriam surgido na Inglaterra, com o desenvolvimento da indústria de chocolateria.

No Brasil, somente em 1920 começam a ser importadas algumas dessas guloseimas. A difusão em larga escala ocorreu nas últimas três décadas. Mais recentemente, indústrias lançaram a colomba, um tipo de panetone no formato de uma pomba, uma referência àquela que, segundo a Bíblia, teria ajudado Noé a identificar o final do dilúvio.

Antes ainda do advento do cristianismo, os coelhos eram vistos pelos povos germânicos como um símbolo da vida nova. Eram os primeiros bichinhos a deixarem a toca na chegada da primavera e também os animais mais férteis conhecidos naquele tempo. 'Como se reproduzem com facilidade, equivalem à vida em abundância. Foram adotados pela Igreja como uma representação da multiplicação de fiéis', explica o frei Mário Tagliari. Como os coelhos têm grande apelo entre as crianças, não demorou que acabassem transformados em peças chocolate.

Se doces e as carnes estavam liberados na Páscoa, o jejum de carne era obrigatório na sexta-feira da Paixão. Para não infringir o preceito religioso e em busca de alternativa proteica, os peixes foram a grande saída encontrada para esse dia. Como descreve Mark Kurlansky no livro 'Bacalhau, a História do Peixe que Mudou o Mundo', esse pescado do Atlântico Norte foi difundido durante a Idade Média pelos bascos, que dominavam técnicas de salgamento. Rapidamente, o bacalhau se virou a estrela do cardápio cristão de sexta.

Diferentemente dos judeus, os cristãos, principalmente os católicos, celebram a paixão e a Ressurreição de Cristo na igreja. Em casa, o peixe é a única sugestão de cardápio.





 

Editoria: Irene Serra
irene@riototal.com.br

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