
(21 de março/ Dia Mundial da Poesia)
Sonia Alcalde
Diante da
escultura de Florbela Espanca (1894
- 1930), em
Évora, uma prece à alma sofrida que encurtou sua vida e a reverência:
Quem
me dera encontrar o verso puro,/ O verso altivo e forte, estranho e
duro,/ Que dissesse, a chorar, isto que sinto!! (in Tortura).
Na capital portuguesa, Fernando Pessoa (1888-1935) em pedra. A
“Autopsicografia” senta ao meu lado:
O poeta é um
fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor
que deveras sente.
Nas falésias
ventosas do Cabo São Vicente, a lembrança dos “Lusíadas”, de Camões (1524-1580),
que me acompanham desde a adolescência:
Cantando espalharei por toda parte,/ Se a tanto me ajudar o engenho e a
arte...
Volto-me para
Coimbra, onde estudou o revolucionário Guerra Junqueiro (1850-1923), do
“Finis Patriae” e do “Os Simples”. Pousando no Brasil, letras de Tom
Jobim (1927-1996) encantam o aeroporto que leva seu nome:
Minha alma canta/
vejo o Rio de Janeiro/ estou morrendo de saudade/ Rio, seu mar, praias
sem fim/ Rio, você que foi feito pra mim...
Aquela que me
conduziu à magia da poesia aparece destemida fazendo coro com Jobim no
além.
Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não
sou alegre nem triste:/ sou poeta. (in Motivo, Cecília Meirelles,
1901-1964).
Cora
Coralina (1889 – 1985), doce, mexe o café comigo:
Não sei... Se a vida é curta/ Ou longa demais pra nós,/ Mas sei que
nada do que vivemos/ Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
(Saber
Viver, fragmento)
Ah, os primeiros
versos recitados... Bilac (1865-1918) em minha boca tem sabor de saudade
da Profa. Virgínia Bittencourt, na Escola Argentina, em Vila Isabel: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/ Perdeste o senso!" E eu vos
direi, no entanto,/ Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto/ E abro as
janelas, pálido de espanto... (in Ouvir estrelas)
Vôo doméstico me leva
ao cordel do nordeste onde contam e desenham suas vidas em volantes.
Estão na minha mesinha de cabeceira e, em quadros, espalhados pela casa. Surge Ariano Suassuna... Da altura de sua sensibilidade derrama o “Auto
da Compadecida” impregnado de cultura popular. Vou à Academia Paraibana
de Letras. Imagens de poetas e a janela aberta me convidam a reflexões.
Faço link com Mário Quintana (1906-1994), o gaúcho do Alegrete radicado
em Porto Alegre:
Todos esses que aí
estão/ Atravancando meu caminho,/ Eles passarão.../ Eu passarinho!
(Poeminha do Contra).
O pampa me puxa. Saltam versos das páginas de “Lunarejo”,
de Luiz Coronel:
Atirei as boleadeiras/ contra a noite que surgia./ Noite a dentro
entre as estrelas/ se tornaram três-marias. (in Pilchas, fragmento).
Dos vizinhos castelhanos, Martin Fierro orgulha a terra de seu autor,
o poeta argentino General San Martin, nascido José Hernandez
(1834-1886): Los hermanos sean unidos/ esa es la ley primera;/
tengan union verdadera,/ em cualquier tiempo que sea,/ porque si entre
ellos pelean,/ los devoran los de ajuera. Em Borges e Neruda,
bebo saudade...
Na cidade onde me aconchego, profusão de poetas do lado de
cá e de lá. Separo alguns com pena de não poder mostrar todas as
riquezas:
No parreiral ouço um ai/ uma uva na chuva/ pensando ser gota, cai
(Haicai de Ernesto Wayne, 1929-1997, in Caixa de Poemas, homenagem em
1998).
Na memória, fragmento de “Bagé em Versos”, de Rafaela Gonçalves Ribas:
Pousei a sombra dos meus/ versos no vértice do cálice/
deste chão./ Quebrei a asa dos meus versos/ e nela enxerguei a aldeia/
em seu começo. Seu universo... (in Manifesto Poético, nº 40/ Cultura
Sul, 2009). Na Antologia “1000 versos do sul e algumas letras perdidas”, do
Cultura Sul, encontro o alerta de Elvira Nascimento:
...mais que nunca é preciso/ que se torne calorosa a alma/ tragando/
gole a gole/ o próprio corpo. (Paz de Espírito, fragmento).
Acesso vários sites literários, milhares de poesias, não dá
pra ler numa vida. Até os livros não consigo, mas continuo exercitando.
E-books surgindo a granel, ainda não sei manusear. Preciso de
mais tempo para me adaptar. Passo em “blocosonline”. Poesia premiada
brilha no monitor:...Muito
depois do crepúsculo,/ ao embalo da madrugada sem sonhos,/ na janela do
quarto imenso e sem alma/ da hospedaria,/ tento reconhecer e recolher/
as estrelas da minha infância... (Milton Ximenes Lima, Minha Aldeia
Perdida, fragmento).
No site Rio Total,
pinço alguns poemas para estar nesse jornal:
Gosto de me iludir/ pensando/ que hoje amo/ melhor que ontem amei/
Assim desculpo o jovem afoito/ que, em mim, me antecedeu/ e, generoso/
encho de esperanças/ o velho sábio/ que amará melhor que eu (de
Affonso Romano de Sant,Anna, Gaia Ciência);
...em nenhum poema fui derradeira/ as minhas letras me são
peneira/ por onde vaza minha vida inteira... (de Rosy Feros, Inteira,
fragmento);
Escrevo/ No vão
intento/ De me conhecer./ Nessa procura/ Escavo tanto/
que me desventro./ — Fico nua de mim —/ Nesse desfenestrar/ Sou pássaro/
voando para dentro/ Sou árvore/ com raízes ao vento. (de Sarita Barros,
Nudez).
.....................
Acordo. Já é outro dia. Ao lado, José Emílio, o amor, o poeta:
A preguiça é/ ah, como estou cansado.../ amanhã continuo.

PS: foto por Sonia
Alcalde,
ref. espaço da Academia Paraibana de Letras, em João Pessoa