Ano 16 - Semana 807

 

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       05 de outubro, 2012
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Andança dos Padres

Jesuítas - Beneditinos - Carmelitas - Franciscanos


Jorge Mitidieri


E das andanças dos Padres pelo Rio de Janeiro, podemos contar grandes e belas histórias. A primeira Ordem a se estabelecer no Rio de Janeiro foi a dos Jesuítas, (que foram expulsos em 1760 por estarem em desacordo com os donos de terras), seguidos pelos Bentos (Beneditinos - Ordem de S. Bento), depois vieram os do Carmo (Carmelitas - os truculentos do Carmo), que contaremos outras histórias mais adiante, depois para aqui vieram os Franciscanos.

Mosteiro de São Bento - Portal São Francisco, Rio de JaneiroEm 1589, chegaram ao Rio alguns Frades que vieram para fundar uma Casa da Ordem de São Bento. Não tendo onde alojá-los o Governador Salvador Correia de Sá deu-lhes para residência a Ermida do Ó e sua construção lateral (Convento do Carmo e antiga Catedral Metropolitana). Lá não se demoraram por muito tempo. Receberam por doação um terreno no morro chamado Manoel de Brito (Morro da Conceição). Preferiram os Bentos um morro perto, onde até hoje lá estão, Morro de São Bento. Instituíram a Abadia e construíram uma Igreja e um Mosteiro, onde também até hoje lá estão. A Igreja é patrocinada por Nossa Senhora do Monteserrate, que sempre foi de especial devoção dos Beneditinos.

E assim, foi a primeira ordem regular a se instalar no Rio de Janeiro, depois dos Jesuítas. O seu Templo e Mosteiro são os edifícios mais antigos, pois os dos Jesuítas foram derrubados no Morro do Castelo.

Assim, desocuparam as instalações que eles tinham na Praça XV. Não ficaram por muito tempo desocupadas. Em 1590, vieram e lá se estabeleceram os Carmelitas. Mas antes, é importante destacar, que para eles foram oferecidos terrenos, no Morro de Santo Antônio, doados por Crispim da Costa e sua mulher para que lá eles construíssem sua morada. Não aceitaram, pois entenderam que era muito longe do burburinho da cidade e pouco aprazível, esse terreno era onde hoje estão o Convento de Santo Antônio e Igreja, no Largo da Carioca. E assim assumiram a posse da Ermida do Ó e de todas suas dependências (Praça XV).

Foi em 1592 que chegaram ao Rio os primeiros seguidores de São Francisco de Assis, para aqui erguerem um Convento de sua ordem. Foi-lhes doada a Ermida de Santa Luzia, com todas as suas casas anexas e vasta extensão de terra, e dividindo com os Jesuítas as bases do Morro do Castelo - a Capela dedicada à Santa Luzia, é de mais de quatro séculos, levantada que foi em 1592 por pescadores, e experimentou duas reformas fundamentais, em 1752 e em 1872. Ali viveram por um bom período de quinze anos. Quando se pensou em erguer o Convento, não se sabe o motivo da recusa de fazê-lo no local, e a eles foi oferecido, em substituição, o morro que os do Carmo não tinham aceito, no morro hoje conhecido como Morro de Santo Antônio.

Lá ergueram o Convento e Igreja de Santo Antônio.

Ocorre que, onde se instalaram os Franciscanos, em frente a uma lagoa, com o tempo tornou-se um local alagadiço e mal cheiroso, em função de um Curtume que lá se instalou. As autoridades, a si tomaram a iniciativa (obrigação), nos termos de um documento existente : “uma vala em forma que a água da lagoa que fica perto do sítio, vá responder ao mar, e não seja prejudicial aos Religiosos que na dita casa habitam”. Um sangradouro foi aberto seguindo pela rua que passou a se chamar da Vala (rua Uruguaiana), e se despejasse no mar, na Prainha, entre os Morros de São Bento e da Conceição. Pouco a pouco, a população das redondezas passou a utilizar-se da vala como local de despejo de detritos vários, a grande cloaca a céu aberto, o que tornou o local centro preferido de mosquitos e moscas. Posteriormente a vala foi fechada com lajes.

Conta-se que certo oficial ligado diretamente ao Conde Cunha, um dos vice-reis, havia se metido em uma séria aventura amorosa e clandestina, e surpreendido por quem de direito, o galante oficial teve que fugir apressadamente, em desabalada carreira em uma noite fria e chuvosa. Na corrida, no atropelo da fuga, caiu dentro da vala, nu como veio ao mundo, fácil é imaginar o estado lastimável em que ele ficou quando saiu da fossa.

Assim, em face ao desastre ocorrido, teria o vice-rei mandado tapar a vala.

Contam os velhos cronistas que a Rua Uruguaiana antes de se tornar uma rua de comercio, ela fora uma das menos respeitáveis do Rio. Durante muito tempo foi uma rua de “encontros”, Em uma rua próxima a Senhor dos Passos, ficavam inúmeros “curtumes” (prostíbulos).

Os truculentos do Carmo, como eram chamados, quando para aqui vieram, anunciaram o propósito de que somente poderiam se estabelecer, se os sentimentos religiosos da população obtivessem as esmolas e as terras que seriam necessárias para sua instalação. Deste modo, obtiveram extensas doações, que "Carmo”! Logo acudiram os devotos com vastos e numerosos donativos de terras em várias regiões da cidade e suas vizinhanças. Crispin da Costa e Isabel de Marins ofereceram o morro situado à beira do hoje Morro de Santo Antônio, para que ali erguessem sua casa conventual. Não gostaram os frades do local, que lhes pareceu ermo, abandonado e longe do centro, um morro escarpado e íngreme, parte de uma lagoa fedida e mal freqüentada, e a ermida que lá existia era acanhada e pobre.

Como os do Carmo eram muito desordeiros, muitas histórias são contadas dos truculentos e indisciplinados; por diversas vezes o Poder Público, autoridades civis ou eclesiásticas, tiveram que intervir, pois era difícil conter sua índole agitada e violenta. A vida dos frades não foi de todo serena. A Irmandade da Misericórdia sempre teve o privilégio de enterrar seus mortos, o que faziam acompanhados de um grupo grande de irmãos, paramentados, e com cânticos; mas não é que os do Carmo cismaram que era um afronta à sua dignidade passarem os préstitos fúnebres pela frente de sua casa, e sempre que se aproximava algum enterro, saíam eles à rua, com seus escravos, armados de porretes, ripas e cacetes, para dissolver o enterro a pau. Muito grande era o escândalo, pois por diversas vezes o defunto era abandonado na rua enquanto eles brigavam.

Tamanha era a confusão que eles armavam, que não tardou em vir ordem da administração eclesiástica que acabou proibindo aos do Carmo de perturbarem qualquer enterro que passasse por suas portas.

Em 1695, quando uma esquadra de marujos franceses aportou na Praça X resolveram, os do Carmo, com cacetadas e bordoadas quando vieram pedir abrigo no Convento, pois as acomodações na cidade eram difíceis.

Tantas dores de cabeça deram às autoridades, que Gomes Freire de Andrade (Conde de Bobadela), chegou a mandar cercar o Convento por tropas regulares, para tentar submetê-los às ordens e disciplina. Brigaram com todos, até com os Irmãos Terceiros do Carmo, quando quiseram levantar sua Igreja ao Lado do Convento. Afinal, acomodaram-se quando foi dada certa quantia em dinheiro como esmola. De tal ordem eram as suas confusões, que o vice-rei apelou para a Rainha D. Maria I, para que desse um fim ao estado de coisas. Para tanto, ela mandou que o Núncio Apostólico de Lisboa desse um fim à situação. Foi nomeado o Bispo do Rio de Janeiro para intervir e até ele sofreu as conseqüências dos truculentos do Carmo, pois os frades impediram a entrada do Prelado no Convento. Foi necessário o apoio das forças regulares para que se fizesse cumprir as ordens. Desterrou, prendeu, excluiu frades, impôs um regime de austeridade extrema para conseguir o intento. Queixaram-se os frades que eram maltratados, chamando-os de palavras baixas uma vez que estavam sendo alimentados somente com tripas, mocotós, bananas e sardinhas.

Muitos frades saíram da Ordem e secularizaram-se os padres para não terem que se submeterem às humilhações. Alguns adoeceram e outros morreram de desgosto, submetidos que foram aos maus tratos. Somente muitos anos depois, tudo foi abrandado, mas já o Convento estava quase vazio e não existiam mais frades para se cumprir os encargos religiosos e diários.


A RAINHA LOUCA


Quando da vinda da Família Real (1808), no pavimento superior do Convento do Carmo, foram instalados os aposentos de D. Maria I, a chamada Rainha Louca. Ali viveu e passou seus últimos dias de demência. Todas as tardes um séqüito Real, em que a Rainha ia, acompanhada de damas e demais cortesãos, saia para passear, aconselhada pelos seus médicos. Quando o povo passava por ela e descobria respeitosamente, D. Maria escondia o rosto atrás do leque aberto para não ser reconhecida pelo demônio, que imaginava ela, estava a sua espreita. Em outras ocasiões, em seus aposentos, julgava-se a Rainha Verdadeira, mas de repente, metamorfoseava-se em galinha e, agachando-se e arrufando as saias, desandava a cacarejar, para confusão geral dos presentes.
 

Do livro Contos e Contos,
 de Jorge Mitidieri,
professor e agente de turismo
j.mitidieri@terra.com.br

 



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