Jorge Mitidieri
ANDANÇA DOS PADRES
JESUÍTAS – BENEDITINOS – CARMELITAS –
FRANCISCANOS
E das andanças dos Padres pelo Rio de Janeiro, podemos contar grandes e
belas histórias. A primeira Ordem a se estabelecer no Rio de Janeiro foi a
dos Jesuítas, (que foram expulsos em 1760 por estarem em desacordo com os
donos de terras), seguidos pelos Bentos (Beneditinos - Ordem de S. Bento),
depois vieram os do Carmo (Carmelitas - os truculentos do Carmo), que
contaremos outras histórias mais adiante, depois para aqui vieram os
Franciscanos.
Em 1589, chegaram ao Rio alguns Frades que vieram para fundar uma Casa da
Ordem de São Bento. Não tendo onde alojá-los o Governador Salvador Correia
de Sá, deu-lhes para residência a Ermida do Ó e sua construção lateral
(Convento do Carmo e antiga Catedral Metropolitana). Lá não se demoraram
por muito tempo. Receberam por doação um terreno no morro chamado Manoel
de Brito (Morro da Conceição). Preferiram os Bentos um morro perto, onde
até hoje lá estão, Morro de São Bento. Instituíram a Abadia e construíram
uma Igreja e um Mosteiro, onde até hoje lá estão. A Igreja é patrocinada
por Nossa Senhora do Monteserrate, que sempre foi de especial devoção dos
Beneditinos.
E assim, foi a primeira ordem regular a se instalar no Rio de Janeiro,
depois dos Jesuítas. O seu Templo e Mosteiro são os edifícios mais
antigos, pois os dos Jesuítas foram derrubados no Morro do Castelo.
Assim, desocuparam as instalações que eles tinham na Praça XV. Não ficaram
por muito tempo desocupadas. Em 1590, vieram e lá se estabeleceram os
Carmelitas. Mas antes, é importante destacar, que para eles foram
oferecidos terrenos, no Morro de Santo Antônio, doados por Crispim da
Costa e sua mulher para que lá eles construíssem sua morada. Não
aceitaram, pois entenderam que era muito longe do burburinho da cidade e
pouco aprazível, esse terreno era onde hoje estão o Convento de Santo
Antônio, e Igreja no Largo da Carioca. E assim assumiram a posse da Ermida
do Ó e de todas suas dependências (Praça XV).
Foi em 1592, chegaram ao Rio, os primeiros seguidores de São Francisco de
Assis, para aqui erguerem um Convento de sua ordem. Foi-lhes doada a
Ermida de Santa Luzia, com todas as suas casas anexas e vasta extensão de
terra, e dividindo com os Jesuítas as bases do Morro do Castelo - a Capela
dedicada à Santa Luzia, é de mais de quatro séculos, levantada que foi em
1592 por pescadores, e experimentou duas reformas fundamentais, em 1752 e
em 1872. Ali viveram por um bom período de quinze anos. Quando se pensou
em erguer o Convento, não se sabe o motivo da recusa de fazê-lo no local,
e a eles foi oferecido, em substituição, o morro que os do Carmo não
tinham aceito, no morro hoje conhecido como Morro de Santo Antônio.
Lá ergueram o Convento e Igreja de Santo Antônio.
Ocorre que, onde se instalaram os Franciscanos, em frente a uma lagoa,
com o tempo tornou-se um local alagadiço e mal cheiroso, em função de um
Curtume que lá se instalou. As autoridades, a si tomaram a iniciativa
(obrigação), nos termos de um documento existente : “uma vala em forma que
a água da lagoa que fica perto do sítio, vá responder ao mar, e não seja
prejudicial aos Religiosos que na dita casa habitam”. Um sangradouro foi
aberto seguindo pela rua que passou a se chamar da Vala (rua Uruguaiana),
e se despejasse no mar, na Prainha, entre os Morros de São Bento e da
Conceição. Pouco a pouco, a população das redondezas passou a utilizar-se
da vala como local de despejo de detritos vários , a grande cloaca a céu
aberto, o que tornou o local centro preferido de mosquitos e moscas.
Posteriormente a vala foi fechada com lajes.
Conta-se que certo oficial ligado diretamente ao Conde Cunha, um dos
vice-reis, havia se metido em uma séria aventura amorosa e clandestina, e
surpreendido por quem de direito, o galante oficial teve que fugir
apressadamente , em desabalada carreira em uma noite fria e chuvosa. Na
corrida, no atropelo da fuga, caiu dentro da vala, nu como veio ao mundo,
fácil é imaginar o estado lastimável em que ele ficou quando saiu da
fossa.
Assim, em face ao desastre ocorrido, teria o vice-rei mandado tapar a
vala.
Contam os velhos cronistas que, a Rua Uruguaiana antes de se tornar uma
rua de comercio ela fora uma das menos respeitáveis do Rio. Durante muito
tempo foi uma rua de “encontros”, Em uma rua próxima a Senhor dos Passos,
ficavam inúmeros “curtumes” (prostíbulos).
Os truculentos do Carmo, como eram chamados, quando para aqui vieram,
anunciaram o propósito de que somente poderiam se estabelecer, se os
sentimentos religiosos da população obtivessem as esmolas e as terras que
seriam necessárias para sua instalação. Deste modo, obtiveram extensas
doações, que "Carmo”. Logo acudiram os devotos com vastos e numerosos
donativos de terras em várias regiões da cidade e suas vizinhanças.
Crispin da Costa e Isabel de Marins ofereceram o morro situado à beira do
hoje Morro de Santo Antônio, para que ali erguessem sua casa conventual.
Não gostaram os frades do local, que lhes pareceu ermo, abandonado e longe
do centro, um morro escarpado e íngreme, parte de uma lagoa fedida e mal
freqüentada, e a ermida que lá existia era acanhada e pobre.
Como os do Carmo eram muito desordeiros, muitas histórias são contadas dos
truculentos e indisciplinados; por diversas vezes o Poder Público,
autoridades civis ou eclesiásticas, tiveram que intervir, pois era difícil
conter sua índole agitada e violenta. A vida dos frades não foi de todo
serena. A Irmandade da Misericórdia sempre teve o privilégio de enterrar
seus mortos, o que faziam acompanhados de um grupo grande de irmãos,
paramentados, e com cânticos; mas não é que os do Carmo cismaram que era
um afronta à sua dignidade passarem os préstitos fúnebres pela frente de
sua casa, e sempre que se aproximava algum enterro, saíam eles à rua, com
seus escravos, armados de porretes, ripas e cacetes, para dissolver o
enterro a pau. Muito grande era o escândalo, pois por diversas vezes o
defunto era abandonado na rua enquanto eles brigavam.
Tamanha era a confusão que eles armavam, que não tardou em vir ordem da
administração eclesiástica que acabou proibindo aos do Carmo de
perturbarem qualquer enterro que passasse por suas portas.
Em 1695, quando uma esquadra de marujos franceses aportou na Praça X
resolveram, os do Carmo, com cacetadas e bordoadas quando vieram pedir
abrigo no Convento, pois as acomodações na cidade eram difíceis.
Tantas dores de cabeça deram às autoridades, que Gomes Freire de Andrade
(Conde de Bobadela), chegou a mandar cercar o Convento por tropas
regulares, para tentar submetê-los às ordens e disciplina. Brigaram com
todos, até com os Irmãos Terceiros do Carmo, quando quiseram levantar sua
Igreja ao Lado do Convento. Afinal, acomodaram-se quando foi dada certa
quantia em dinheiro como esmola. De tal ordem eram as suas confusões, que
o vice-rei apelou para a Rainha D. Maria I, para que desse um fim ao
estado de coisas. Para tanto, ela mandou que o Núncio Apostólico de Lisboa
desse um fim à situação. Foi nomeado o Bispo do Rio de Janeiro para
intervir e até ele sofreu as conseqüências dos truculentos do Carmo, pois
os frades impediram a entrada do Prelado no Convento. Foi necessário o
apoio das forças regulares para que se fizesse cumprir as ordens.
Desterrou, prendeu, excluiu frades, impôs um regime de austeridade extrema
para conseguir o intento. Queixaram-se os frades que eram maltratados,
chamando-os de palavras baixas uma vez que estavam sendo alimentados
somente com tripas, mocotós, bananas e sardinhas.
Muitos frades saíram da Ordem e secularizaram-se os padres para não terem
que se submeterem às humilhações. Alguns adoeceram e outros morreram de
desgosto, submetidos que foram aos maus tratos. Somente muitos anos
depois, tudo foi abrandado, mas já o Convento estava quase vazio e não
existiam mais frades para se cumprir os encargos religiosos e diários.
A RAINHA LOUCA
Quando da vinda da Família Real (1808), no pavimento superior do Convento
do Carmo, foram instalados os aposentos de D. Maria I, a chamada Rainha
Louca. Ali viveu e passou seus últimos dias de demência. Todas as tardes
saia um séqüito Real, em que a Rainha ia, acompanhada de damas e demais
cortesãos, saia para passear, aconselhada pelos seus médicos. Quando o
povo, passava por ela e descobria respeitosamente, D. Maria escondia o
rosto atrás do leque aberto para não ser reconhecida pelo demônio, que
imaginava ela, estava a sua espreita. Em outras ocasiões, em seus
aposentos, julgava-se a Rainha Verdadeira, mas de repente,
metamorfoseava-se em galinha e, agachando-se e arrufando as saias,
desandava a cacarejar, para confusão geral dos presentes.
Do livro Contos e Contos,
de
Jorge Mitidieri,
professor e agente de turismo
jmvrlm@gbl.com.br