Jorge Mitidieri
 

Cresce o Rio de Janeiro

Diligências


E o Rio de Janeiro crescia, o povo se locomovia, e em 1837 iniciou-se o sistema de transporte coletivo com a “companhia de carros de posta para pessoas decentes, denominados na França de Omnibus. Entre nós, Ônibus ficou o nome dos veículos, as diligências puxadas a muares, com três linhas regulares, para São Cristóvão, Engenho Velho e Botafogo. A companhia prosperou e contribuiu para a expansão urbana. Mais tarde apareceram os concorrentes com o aumento da população, as gôndolas que eram veículos mais leves e mais rápidos. Vieram a maxabomba, e finalmente o bonde.

Surgiram em 1859, puxados por burros, os primeiros que a cidade conheceu e pertenciam à Companhia de Carris da Tijuca, que teve efêmera duração. A primeira concessão (1868)- Botanical Garden Railroad Company – inaugurou a primeira linha entre o centro da cidade e o Largo do Machado, e essa inauguração foi muito festiva. Essa companhia se propunha a construir e explorar uma linha de carris para o Jardim Botânico. Como dizia Olavo Bilac –“o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade”- em 1903.

Constituiu-se na verdadeira democracia sobre rodas. Bonde, nome que se originou nos talões vendidos para facilitar o troco. Tinha suas noites de gala, quando por ocasião dos espetáculos de gala do teatro Lírico, eram forrados de branco, para proteção dos fregueses de maior luxo, e o povo apelidou de “Bonde de Ceroulas”. Outro dito popular, que também apareceu, diz respeito ao “Almofadinha”, pessoas mais granfinas levavam suas almofadas para poderem sentar-se nos Bondes, que tinham seus bancos de madeira, sem machucar os belos traseiros. Dentro de sua própria expansão, teve seu apogeu quando, em 8 de outubro de 1892 apareceram os primeiros bondes elétricos, na linha do Flamengo, todo pintado de amarelo, o “perigo amarelo”, como eram chamados por causa de sua alta velocidade. Em 1º de setembro de 1896, inauguravam os bondes elétricos, da Companhia Ferro Carril Carioca o “bondinho de Santa Teresa”.

Com o correr dos anos, os bondes foram desaparecendo, e deixaram uma dívida de gratidão na cidade, de belas lembranças e de carinho da criação de tantas expressões do gosto do Carioca como: “tomar o bonde errado”, “comprar bonde”, “pegar o bonde andando” e outras. Foram um fator de desenvolvimento do Rio de Janeiro.

Barca do Rio para Niterói, em 1835.Respeitando a ortografia, transcrevemos o regulamento assinado pelo administrador da Companhia Navegação de Niterói, que possuía o privilégio para explorar por dez anos a navegação por barcos a vapor entre Rio e Niterói (1834):

”A carreira das barcas principia às 6 horas da manhã, largando todas as horas, tanto de hum como de outro lado, até as 6 horas da tarde. Que he a última carreira. Os passageiros não deverão conversar com o machinista, nem com o homem do leme. Nos acentos de ré não é permitido fumar, nem assentar escravos. A camara interior é destinada para as senhoras, na qual não é permitido entrar passageiro algum. O mestre de barca será responsável por qualquer omissão ou falta de cumprimento do Regulamento e dará as necessárias providencias para conservar a boa ordem. Preços: Nos dias de semana ou de trabalho, por pessoa livre 100reis, escravos 80Rs. Nos domingos, dias santos, ou de festas, por pessoa 160Rs, escravos 80Rs. Em casos extraordinários, que seja necessário mandar huma Barca depois das horas marcadas na sua carreira, será o preço da passagem por pessoa livre 360Rs. N.B. – Passagens de cargas ficão por hora e arbítrio do Cobrador.”

Conta-se que, tendo em vista que a grande maioria do povo era pobre e não tinha sapatos, a Companhia facilitava o transporte de graça para quem estivesse descalço. Privilégio este que foi suspenso quando se descobriu que muitas pessoas tiravam os sapatos e os guardavam, conseguindo assim passar de graça.


 


Do livro Contos e Contos,
 de Jorge Mitidieri,
professor e agente de turismo
jmvrlm@gbl.com.br
 

 


Direção e Editoria
Irene Serra
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