CAMADAS NO CENTRO DA VIDA



— Rospo, precisa entrar em sintonia... com a vida.

— Deve estar brincando, Sapabela.

— Estou. Sou brincante, sou brincadeira, adoro brincos. Sempre estarei brincando...

— E hoje está mesmo, e linda. Adorei os seus brincos. Essa cor esmeralda é esmero da alma.

— Obrigado, caro amigo.

— Não usa anel?

— O meu "era de vidro e se quebrou"...

— Sua alma, seu coração, cantiga-se por aí. Num instante estou enlaçado pelos seus olhos regados de poesia. E gostei muito do seu brinco, é mesmo uma autêntica brincante. Mas, sabe o que eu menos gosto no inverno?

— Sapos desabrigados?

— Sapabela, essa é a minha sintonia com o mundo, com a vida. O que me comove em mim é que estou em permanente fusão com a atenção que as injustiças clamam. Mas o que me incomoda muito no inverno é outra coisa, que está num outro plano, entendeu? Somos compartimentos, camadas, e, já sabe, o sapo que se alvoroça na força catalisadora da arte, mas fecha os olhos ou o coração para as injustiças e as dores do mundo, esse sapo já se dissolveu na memória essencial. Bem, somos camadas, você entendeu isso, não é?

— Claro, Rospo! E só não entendo o porquê de tanto discurso. O que você está querendo dizer, afinal? O que mais o incomoda, nessa sua outra camada?

— O excesso de roupas das sapas por causa do frio.

— Eu sabia!

— Vai deixar mofando aqueles vestidinhos?

— Está frio, Rospo! Mas, como eu dizia lá acima, você precisa viver em sintonia, em harmonia...

— Ora, Sapabela, paraísos me incomodam, a vida não é um celibato, nasci para velejar nos temporais, relampejar no surf, surfar nas tormentas, nas ondas que se atiram contra os rochedos e causam espumas... Nasci para correr ao vento, num avental de aventuras sem fim. Quero viver intensamente, e sei que isso requer um equilíbrio de baile, de valsa e de rock...

— Entendi, a sua harmonia é estar no centro da vida.

— Exato. Que a vida seja ela mesma, e que meu barco siga no azul, mas um azul apto para os vendavais, os ciclones, os rodamoinhos, as ondas e as espumas. A vida é um encanto, em toda a sua plenitude, se fosse só paz e quietude, se fosse só sossego, que coisa mais sem graça seria.

— Que lindo, Rospo. A partir de hoje darei valor a todas as minhas camadas.

— Como se já não fizesse isso.

— Tchau, preciso ir.

— Já?! Então, deixe-me dizer. Que linda brincante está, com esse brinco de brilhar, de esmeraldar a vida, só falta o vestidinho, mas vamos dar uma chance para o inverno e perdoar essa injustiça.

— Rospo, não me faça rir. Ou melhor, faça.




05 de agosto, 2011
Ano 14 - N° 747