SEM ABSTRAÇÕES



Lá ia linda no seu vestidinho, um esmero de alegria. Uma paixão pela claridade do dia, fã do afã de viver, quando encontra o velho amigo, que, como vinha a cismar, engatilhou a conversa.

— Sapabela, tem sapa reclamando que com o passar dos anos o fantasma da rotina apaga a chama do amor, e o relacionamento entra no seco córrego da mesmice. O amor se vai, e a falta de diálogo é recheada com palavras vazias.

— Não acontece na vida e no relacionamente entre um sapo e a uma sapa algo assim tão abstrato. Não existe abstração num caso de amor.

— Caso de amor? Estou falando de vida a dois, de casal em casa quase não mais se acasalando, estou falando de casamento, de cores desbotadas, de falta de apetite, de silêncios mastigados, de...

— Rospo, quando uma sapa ou um sapo diz que acabou um relacionamento, e essas coisas que se diz, para justificar a fuga da paixão, etc... estão falando de abstração, como se fosse isso possível. Não existe mágica na suposta perda de interesse pelo outro. Não existe abstração. E mesmo um amor caseiro é um caso de amor, que pode ou não durar uma vida, é só lembrar que o "Pra Sempre" é o momento que passa, o instante que se vive.

— Pode ser um pouco mais clara, minha querida?

— Sempre posso. É o seguinte: nada é abstrato, tudo é concreto, e faz parte de uma cumplicidade, de uma participação em conjunto, onde quase sempre os dois são responsáveis, os dois são auxiliares da omissão diária, da elasticidade na distância do aconchego.

— Estou começando a entender.

— Por isso você é o meu sapo preferido.

— Quer dizer que falam essas coisas, do desbotamento da paixão, como se falassem abstrações, como se fosse possível tal coisa ocorrer, se achegar, num passe de mágica, sendo que os dois são os responsáveis, e não há um só tijolo que ali não tenha sido colocado e assentado por qualquer um deles, essas peças no fascinante tabuleiro de xadrez, que é a vida em comum, e que se dissipa porque querem, porque deixam... Perdas não são mágicas, não são entes nem sequer fantasmagóricos. São realidades concretas e objetivas, que foram edificadas por dois sapos que vivem sob o mesmo teto.

— Isso! Não conseguiu ser mais sintético, mas mandou bem.

— Sapabela, vamos tomar um sorvete.

— Já indo.

— Que vestidinho lindo!

— Obrigada!

— Não ficou chateada por eu ser tão atrevido?

— Atrevido? Imagine! Isso faz parte, e nem tenha o atrevimento de não reparar no meu vestidinho!


 


12 de agosto, 2011
Ano 14 - N° 748