O TEMPO QUE AO TEMPO TEM



— Lá vai um limitar.

— Sapabela! Você trocou as sílabas, parece uma algazarra das letras. Não é limitar, é militar.

— De vez em quando faço isso, Rospo. E você? Como anda? Faz tempo não o vejo por aqui.

— Mas estou por aí.

— Meu amigo, um pouco só do tempo sem você por aqui é para mim um século de solidão.

— Não sei bem se isso é uma homenagem sua ao Gabo ou apenas uma hipérbole, mas, veja só que curioso: quando fala do tempo...

— O que tem ele?

— Será artigo de luxo no futuro. Você terá que comprar uma cota de tempo, pois o tempo terá sido tão desperdiçado que, bem, sabe, ele não é renovável, é como algumas fontes de energia: o petróleo, por exemplo, Então o tempo precisa ser melhor aproveitado.

— Os sapos não estão gastando adequadamente o tempo?

— Estão jogando fora. Muitos sapos ficam horas pendurados na televisão. O tempo será tão precioso na vida de qualquer alguém no futuro, que quem perder tempo, dançou. Perdeu para sempre. E depois, bem sabemos, não adianta chorar.

— Rospo, você está pessimista hoje.

— É impressão, Sapabela. O tempo imprime a sua ausência, e depois, um dia, será a falta mais dolorida. Quem nunca teve tempo pra nada, pois sempre desperdiçou o seu, verá então que o tempo que o tempo tem não será suficiente para cobrir a sua necessidade de viver.

— Nossa! Qual será então a solução?

— É simples. Não ridicularize o tempo, não o despreze, não o desvalorize, não tenha para com ele um só fiapo de descaso.

— Nossa! Você está meio dramático, Rospo.

— Estou? Espere para ver o que é realmente drama quando as cortinas se abrirem para o espetáculo do tempo e não haverá mais tempo para palco. Você dirá que o tempo que passa é generoso, mas ao mesmo tempo implacável.

— Rospo, vamos tomar um sorvete? Quero aproveitar bem o tempo meu.

— E isso é tão simples, não é, Sapabela? A melhor forma de aproveitar o tempo é viver intensamente, e isso, pode crer, às vezes começa num convite para um sorvete.




12 de agosto, 2011
Ano 14 - N° 748