AVISANDO O CORPO



— Rospo, já é luar, e eu vou avisar o meu corpo que amanhã é sábado.

— Que papo é esse, Sapabela? Hoje é quinta!

— Todas as noites eu faço isso.

— O que você faz, Sapabela?

— Aviso ao meu corpo que o dia seguinte é sábado. Todos os dias são. E você sabe, sábado temos que capturar logo cedo. Bem na manhã devemos aconchegá-lo entre nossos braços e aí...

— Pode deixar mais claro isso?

— Deixar claro é comigo mesma. Por isso sempre preferi ler Filosofia por conta... Sem ler os críticos resenhadores primeiro... Só depois que eu leio no original é que vou aos críticos e então descubro como é tão complicado um sistema filosófico que no original parecia mais simples.

— Tudo bem, Sapabela, não precisava essa cutucada, mas...

— Cutucar? Mas não estamos na Rede!... Bem sabe que as palavras estão sendo alteradas em seus sentidos, graças à Internet. Carregar virou outra coisa, e cutucar também...

— Sapabela, você não sossega! Fale das suas noites...

— É verdade, Rospo. Todos os dias são sábados, podem ser, e então aviso o meu corpo.

— Por qual razão faz isso, minha amiga?

— É que assim meu corpo, ao ser avisado à noite, então acorda na leveza, aquela leveza que o sábado quer.

— Está bem, Sapabela, tenho muito o que aprender com você. Vamos tomar um sorvete?

— Já estou lá. E falando em Spinosa...

— Eu não falei!

— Estou antecipando o sorvete.

— Entendo, a conversa vai junto...

— Claro, sorvete que se preza é como sábado. Só leveza, só alegria.

— E, para você, discutir Filosofia é alegria?

— Falar sobre livros, Rospo. Eis a chave da alegria. E haja sorvete.




19 de agosto, 2011
Ano 14 - N° 749