O AMOR QUE MOVE


Lá ia a Sapabela, linda como sempre, esmalte lilás bem suave, vestidinho com tonalidades roxas, a própria beleza flutuando em si. Então, encontra o querido amigo Rospo.

— Rospo! Rospo! Meu querido! Como vai?
— Eu estou bem, minha cara. Nunca estive tão feliz. Hoje queria falar de amor, que é o meu prato predileto.

— Prato?

— Eu quis dizer: assunto. Que tal um sorvete?

— Pronto! Já aceitei. E vamos falar dele?

— Dele?

— É, o amor.

— Muito bem. Na vida de um sapo o amor é o eixo central. Não adianta mestrado, doutorado, nada. Só o amor faz ele ser feliz. Mas, claro, ele tem que ser atencioso, tem que cuidar do seu amor, com zelo, tem que transmitir segurança, tem que ter carinho. O amor é exigente, mas é simples.

— Rospo, quando um sapo está apaixonado uma mensagem no celular modifica a noite, o sol lampeja de estrelas fulgurantes... estrelas que são aquarelas piscantes em seu coração. Mas quando o seu amor se vai, a ausência de mensagens no celular dói mais que o poema do Manuel Bandeira.

— Sapabela, o amor é de fato a coisa mais importante na vida de um homem, as grandes travessias do mundo se deram por causa do amor. Por um fio de cabelo de Isolda, um varão apaixonado trançou mares e afugentou medos... O amor requer para si aventura, despojamento, cuidado e zelo, mas sobretudo, querer, ele é feito de quereres.

— O sapo só é feliz no amor, isso já sabemos, mas fale daquela visão esplendorosa...

— Quando cessou o tempo da fecundação incessante, desculpe o trocadilho, mas quando esse tempo cessou, surgiu nas espumas do mar ensanguentado Afrodite, que visão maravilhosa! E ela caminhou sobre as águas e trouxe para a humanidade a era do amor. Com ela o amor surgiu.

— É bonito.

— E tem mais.

— Tem?

— Tem. Sempre tem.

— Pois diga, meu amigo.

— Digo sim. Além de presentear a humanidade com a era do amor, Afrodite ofereceu o seu filho. Numa tarde de ventania relampejante ela ergueu o seu pequeno e bradou aos céus: "Aqui deixo a vocês o meu filho, Eros!"

— Então ela também presenteou a humanidade com Eros?

— Sim, para que o amor dos humanos seja aperfeiçoado. Eros inaugura a era do amor erótico, que é uma das maravilhas do humano, quer dizer, estou me referindo a nós, os sapos. Com o amor erótico, então os sapos puderam embelezar o próprio amor. Um amor com erotismo só fortalece a parceria.

— Essa Afrodite sabia das coisas, não é?

— E o amor se tornou eterno em cada coração.

— Eterno? Mas o amor é sempre devorado por Crônos, que a tudo devora.

— Não é bem assim, Sapabela. Um amor verdadeiro jamais morre, e jamais se vai por completo, sempre ficará guardado naquele canto do coração onde residem as dores esquecidas.

— Como seria a humanidade dos sapos sem amor, Rospo?

— Nem valeria a pena, minha cara, nem valeria a pena.

— Então, quem tiver o seu amor que cuide dele.

— Com atenção, com carinho, vivendo em retidão, e uma boa dose de erotismo.



23 de setembro, 2011
Ano 14 - N° 754