NA PRAÇA LENDO O JORNAL


— Meu amor, quando nascer em meu coração, será 0800.

— Gostei, Sapabela. Fale sobre ele.

— Mas ele ainda não chegou, Rospo.

— E o que precisa para ele chegar?

— Não precisa de nada. Não se mede tempestades antecipadamente. Ou melhor, precisa sim. Precisa ser puro. Um requisito essencial é a atenção. Ele, seja ele quem for, deverá ser atencioso. E você, Rospo, o que fazia naquele banco da praça, fingindo novamente que estava lendo jornal?

— Com efeito, Sapabela. Aprecio ouvir os namorados, preciso saber a quantas anda esse sentimento em nossos dias, tão tecnológicos...

— E gostou do que ouviu, seu curioso?

— Até que foi um diálogo interessante. Nenhum dos dois estava jogando no celular enquanto o outro falava. E a conversa desembocou numa preciosidade. Parece que os dois estão se separando.

— E você nada fez para impedir?

— Não pude, Sapabela. Ele era meio brutamontes, e poderia achar que eu estava entrando na conversa.

— Era conversa mesmo?

— Bem, o que ele dizia era assim: perguntava para ela quem a teria levado dele, quem teria tirado ela dele. Assim, tipo: "Quem tirou você de mim? Quem foi ele? Quem a tirou de mim?

— E o que ela respondia?

— Ela dizia da estupidez dele em várias oportunidades, da sua falta de atenção, ele preferia mais torcer pelo Peixe do que estar com ela.

— Então ele não gostava de marcar gol.

— O que disse?

— Nada, meu bem. Quer dizer então que ele é um torcedor do Santos e apreciava mais o futebol do que a sua própria sapa? Bem, sobre o que disse do gol, entenda: Estar com o amor da sua vida é ampliar o placar. Mas continue.

— E ele prosseguia naquele papo sem sabor que sempre vigora quando a sapa já se fora. E dizia: "Quem a levou de mim? Quem tirou você de mim?"

Então, ela respondeu.

— Diga, Rospo! O que ela respondeu?

— Quando ele perguntou novamente quem a teria tirado dele, ela disse: "Foi você!"

— Xeque-mate!



23 de setembro, 2011
Ano 14 - N° 754