LÁ VAI ELA, A SAPABELA


— Sapabela!

— Rospo, meu amigo! Estou tão feliz!

— Eu também, querida.

— Vamos então entrelaçar as nossas felicidades e tomar um sorvete?

— Desta vez foi você quem convidou, Sapabela!

— Você demorou, Rospo!

— Mas cheguei agora!

— Chegou quase por completo, pois demorou a convidar.

— Sapabela, um amigo meu está com as mensagens dele bloqueadas no Facebook. Ele queria dizer que discorda, mas a opção de discordar ainda é uma ideia muito avançada na Rede.

— O que aconteceu, Rospo?

— Ele tentou solicitar a amizade de uma sapa escritora com a qual tem 400 amigos em comum.

— Qual o problema?

— Surgiu o quadro que diz que uma mensagem para um estranho é considerada Spam. E ele, por distração...

— Mas uma escritora é um estranho? Ainda mais com 400 amigos em comum? Coisa estranha!

— Verdade! O conceito de "Estranho" no Facebook é algo estranho. Principalmente entre escritores.

— Não me faça rir, Rospo! Ou melhor, faça.

— Mudando de assunto, qual o motivo da sua felicidade, Sapabela?

— Uma colisão de alegrias, Rospo! Sou mais Penélope agora. Teço, mas teço não esperando alguém, teço o que em mim tece de vida e aventura, de sonhos e liberdade. Sou uma profusão de vidas e anseios. Quero tudo! Descobri num pasmo delicioso que estou em tudo, em cada flor, em cada estrela, no próprio ar. Eu sou o instante, Rospo! Não estou isenta, jamais, diante da acusação de ser feliz. Quero mais viver intensamente. Estou nas sapas que mergulham nas profundeza do Ser. Ser, Rospo, não é um discurso trivial, não é um argumento banal. Ser é florificar a essência das coisas que no turbilhão da vida se agitam. Se é para ser, que seja de forma intensa. O universo clama por cada um de nós.

— Eu conhecia "frutificar"...

— Florificar existe, Rospo! Ainda estou florificando. Os frutos virão depois. Por enquanto teço a taça na qual tomarei o vinho da liberdade. Liberdade de apenas ser. Em paz e simplicidade.

— Sinto que está enraizando, Sapabela.

— Estou folheando, estou brotando, estou arvorecendo-me, para depois colher os frutos, e o principal deles...

— Qual o principal dos frutos, minha amiga?

— O espelho. É poder me ver nele. Olhar a cristalização do meu Ser, ali, absoluto, limpo, envidraçado, transparente e não fugaz. Saber que no rosto espelhado a fugacidade não tem vez, o que é transitório se afugenta, o vento afasta para longe. Rosto espelhado não é para mim rosto empalhado. Ao contrário, pode ser espalhado nas coisas em que me alcanço, que me entrelaço. Mas sou meu próprio laço. Quando me vejo, sei que meu rosto é além da aparência: nele, em cada detalhe, em cada traço está exposta a minha aventura de viver. E essa aventura não se escreve com batom, mas com a sinceridade. Meu giz é a minha audácia de ser.

— Sapabela, você é uma revolução de si. A oportunidade rara e única de se expandir. Quando começou isso? Essa expansão?

— Começou no querer. Ele chegou feito um terremoto, eu estava na mansidão das turvas águas que não se movem, quando ele chegou. Primeiro senti um vento acusador, que logo beirou ventania encantada...

— Encantada?

— Sim, o que me seduz e me mobiliza ao mesmo tempo me encanta.

— Conte como foi, Sapabela.

— Eu estava atracada...

— Atracada?

— Exato. Eu era um barco atracado num seguro cais, enferrujando-se, feito de incertezas e indecisões. Muitas sapas vivem assim. Algumas, nessa aparência de seguro cais que a vida para elas se tornou, procuram de forma insconsciente alguém para mandar nelas. Não se deram conta da beleza que é ter um companheiro que não mande nelas, algum sapo que não tenha em si essa opção de ser dono de alguém...

— Dono? Isso de fato existe?

— Rospo, veja só: as flores florescem. Esse é o seu fazer. A isso se destinam, e assim se realizam. Mas então, carregam em si, se quiserem, as trovoadas, os relampejares, o clarão de relâmpagos e as fúrias dos mares autênticos. É assim que eu quero, é assim que eu sou. Quero ser mais louca do que sou, do que sempre fui, na minha infância, mas não viram.

— É que tentaram desbotá-la desde cedo, camuflar, ocultar a riqueza esplosiva da sua autenticidade, minha querida.

—S im, a menina que eu era já levava em si a loucura de ser feliz, a loucura da liberdade, de ser Sapabela, mas tantas coisas me ensinaram e nos ensinam para que sejamos a vida inteira obedientes... Nem imagina, Rospo, como a voz da obediência está presente em nossa sociedade...

— Sapabela, não sou um sapo alienado.

— Eu sei, meu querido, e nem se arvora em ser dono de quem quer que seja... Porém, observando, compreendi que muitas no fundo não querem apenas gentilezas, e sim comandantes... Não sou um manequim de alma.

— Sapabela, não precisa se aprofundar tanto. Permaneça apenas em seu próprio espelho, que além de mostrá-la no mar das águas revoltas, no furioso oceano de lutas e sonhos, revela a sua aparência exterior.

— Claro, Rospo. No fundo, eu sempre quis um espelho duplo, que me mostre por fora e por dentro, mas, por que diz isso?

— Porque está hoje mais linda do que antes, mais exuberante, mais radiante. Parece que transparece em cada pétala sua....

— Obrigado, Rospo! Sou sim essa beleza de se ver, mas estou além do esmalte, dos brincos, e do pó facial. Estou além da minha pele e do verde claríssimo do meu olhar. Estou no mergulho: é lá que me encontrará de verdade. Porém tenho algo mais a dizer, a última coisa, Rospo, afinal sorvete não foi feito para esperar tanto.

— Então diga, minha querida amiga.

— Meus vestidinhos existem e continuarão existindo: lindos e coloridos, pois eles serão sempre o meu símbolo, a minha expressão. Vestidinhos azuis, lilases, floridos... E quando me ver passar, saiba dizer primeiramente o essencial...

— Eu sei.

— Pois então diga, para eu ver agora.

— Gosto muito quando alguém quer ver em vez de apenas ouvir as palavras.

— Sim, Rospo, as palavras estão além da sonorização. Mas diga.

— Lá vai ela, lá vai Sapabela!

— Rospo, se pudéssemos dançaríamos em todas as praças, em todos os viadutos... Mas, vamos: o sorvete nos espera.



07 de outubro, 2011
Ano 14 - N° 756