É TÃO FÁCIL JOGAR FORA


Sapabela, com suas roupas que não combinam, linda de se ver, num domingo, que adomingou logo cedo, chegou e já disse a conversa:

— Rospo!

— Querida amiga! Salve o domingo! Seu vestidinho está lindo, tão lindo que só uma ventania para me fazer de todo feliz.

— Rospo, pare com esse papinho. E você, o que tem de convite hoje?

— Na praça tem garapa gelada. Topa?

— Já estou lá, um convite assim não se joga fora.

— A coisa mais fácil é jogar algo fora. Principalmente o amor.

— É mesmo? Então, precisa muita decisão, força e coragem, pois o amor gruda em nossos corações...

— Sapabela, o amor geralmente não se joga fora assim abruptamente, de forma brusca. Não é uma decisão repentina. Ele é jogado fora diariamente, aos poucos...

— Eu jamais farei isso, Rospo! Do meu amor com zelo cuidarei.

— Mas de um modo geral o amor se joga fora assim, lentamente, e é fácil se observar isso...

— Então, me diga, meu amigo.

— Cada implicância, uma leve agressão, uma piada boba, uma desatenção, uma malícia, um ciúme bobo, uma tolice, uma pedra atirada, mesmo que seja uma pedrinha, uma mentira, uma palavra brusca, um gesto arisco, uma recusa num convite, seja para o cinema, para um...

— Ir ao estádio assistir futebol? Isso também vale?

— Sapabela...

— Ficar entrando nas lojas do Shopping para fazer compras?

— Sapabela, pare com isso! Estou querendo dizer que o amor é jogado fora com os pequenos gestos de indelicadeza, a falta de atenção, as discussões, as palavras que ferem lentamente, e apenas superficialmente, mas que depois, com a rotina do tempo, vão ferindo profundamente. O que estou querendo dizer é que o amor exige atenção. Sempre. Ele é filho da atenção.

— Gool!

— O que é isso?

— Estou treinando. Se meu amor um dia me convidar para assistir a uma partida de futebol.

— Você está muito zombeteira hoje, minha querida. Além do mais, não existe sapa igual a você.

— Com isso concordo plenamente.

— E ainda está convencida.

— Mas eu gostei dessa conversa, Rospo. Vamos tomar nossa garapa.

— Mas a conversa não terminou, Sapabela. Você parece que nem prestou atenção!

— Estou treinando, Rospo!

— Treinando?

— Para quando tiver um amor, assim já sei tudo que não devo fazer. Mas tem algo...

— Diga, querida.

— O amor tem que ser compartilhado pelos dois...

— Naturalmente que seja assim.

— Mas se um dos dois faz desatenção e mágoas e tudo isso que joga fora o amor, o que faz o outro?

— Faz a sua parte, que é resistir, resistir, resistir...

— Resistir pra sempre?

— Claro que não, Sapabela! Só até cansar.



07 de outubro, 2011
Ano 14 - N° 756