REENCONTRO NUMA PRAÇA


— Sapabela! Que vontade de aplaudir!

— Aplaudir o que, Rospo?

— A sua chegada, o nosso encontro. Isso merece aplauso.

— Se começar a aplaudir dirão que é maluco, a praça está repleta.

— Aplaudo então com o olhar, olhando você, seu vestidinho branco. É a primeira vez que usa branco. Deve ter algum significado.

— Não, meu querido. Apenas considerei o vestido muito bonito, e quis usá-lo, mas não deve estar combinando com a fita nem com os brincos. Sou assim mesma, já sabe. Não combino nada. E quando vou organizar, acabo desorganizando tudo. Meio atrapalhadinha, não é?

— O papo do vestidinho não me convenceu. Para a sapa uma cor jamais será em vão. Se está de branco, em vez de azul, algo quer dizer. Talvez seja uma forma de começar o seu enluarar-se.

— Rospo! Um sapo tem de observar tudo! Não reparou o azul na fita?

— Vi, Sapabela. Mas o branco está predominando. Deixe-me apertar a sua mão.

— Estava demorando, Rospo, meu doce amigo.

— Sapabela! Que quentura! Isso é quentura de querer.

— Não estou querendo nada que sua mente ligeira esteja supondo.

— Não supus nada. Apenas que isso não é quentura de ficar em casa.

— Nisso tem razão, meu querido. Abra os braços! Vamos ao teatro. Cinema.

— Agora não dá mais. Vamos ficar aqui na praça.

— Rospo?

— Sim?

— Não vai me convidar para um sorvete?

— Vamos?

— Já indo! Adoro tomar sorvete na calçada.

— Eu me contento com a calçada.

— Que está querendo dizer?

— É que lembro das janelas...

— Tomar sorvete na praça, na calçada. Isso é um privilégio. No teatro, que infelizmente não podemos ir hoje, as coisas são faladas no palco. E aqui, no sorvete nosso, são faladas de olhar para olhar. Isso não tem preço.

— Sapabela. Felizes os que podem viver um pouco que seja da noite. Assim somos nós.

— Posso dizer algo?

— Sapabela. Se tem uma coisa proibida entre nós é pedir permissão. Diga!

— Você é desconcertante.

— Talvez por isso ainda não fomos a um concerto.

— Rospo, veja a lua!

— Ela é um satélite, sabemos disso, mas é mais do que um satélite.

— O que é a lua então?

— A mais doce testemunha dos amores confessados, e também dos sorvetes nas noites de olhares que aplaudem. Sapabela. Obrigado pelo lindo vestidinho branco.

— Pus porque eu gostei, Rospo.

— Eu sei, mas eu gostei porque tive o privilégio de ver, e por isso agradeço, que agradecer é tecer amavelmente.

— Rospo, não se afaste jamais. Meu amigo adorável.

— Sapabela. Sou o sapo mais sortudo e feliz do mundo.

— É?

— Religiões, mitologias e crenças dizem que anjos existem...

— E daí?

— Descobri que um deles adora sorvete.

— Está muito sensível, Rospo. Parece que enfeitou a alma com boleros.

— "Ela sempre acerta!"...

 



11 de novembro, 2011
Ano 15 - N° 761