O SAPO RICO


— Rospo, pare de fazer escarcéu! Vem correndo, de braços abertos, chacoalhando os braços. O que aconteceu? Viu novamente a horripilante criatura da indiferença? Sei que esse alienígena o perturba, mas, não fique tão afobado. Não é toda hora que tem a Sapabela por perto para pôr você na linha.

— Ouça, minha querida. Não foi a criatura da indiferença que eu vi, e ela nem é alienígena, é bem humana, por sinal.

— Mas então, o que o agitou tanto?

— Estou rico, Sapabela! Rico!

— Uau! Espere! Não sou eu que falo isso...

— Sapabela, adoro metalinguagem, mas, como eu dizia: estou rico. Rico! Entendeu?

— Não. Eu sei que você não aposta na quina. Então, como é possível que esteja rico?

— Quina? Ora, Sapabela. Uma criança sorriu para mim.

— Isso é muito bom, Rospo, é pra lá de bom.

— Sim, o infinito me sorriu. Viva!

— Parabéns, Rospo, essa riqueza é a melhor.

— Também ganhei um poema!

— Da criança?

— Não, Sapabela. De uma amiga. Ela me ofereceu um poema.

— Aconteceu mais alguma coisa?

— Não quer saber mais da minha amiga que me deu um poema?

— Gostaria que me lesse o poema.

— Farei isso. Não se recusa ao pedido de uma Sapabela, mas, queria falar mais da minha riqueza.

— Diga então. O que mais aconteceu?

— Pude conversar comigo mesmo.

— Ninguém pensou que pudesse estar maluco? Bem sabe que os sapos nem conversam mais entre si. A maioria consegue conversar nas redes sociais. Mas quando tem a presença do outro, fica mais difícil.

— Ninguém pensou que eu estivesse maluco, porque conversa consigo mesmo é conversa silenciosa, para dentro. Sem alarde no exterior.

— Rospo, creio que tem razão. Você está mesmo rico. Um sorriso de criança, um poema de uma amiga, uma conversa interior... Que mais pode um sapo querer?

— Pode falar?

 



01 de março, 2012
Ano 15 - N° 761