NO EMBALO NA MANHÃ DE DOMINGO


— Rospo, hoje é domingo!

— Yupiii!

— Meus ouvidos, Rospo!

— Desculpe. Empolguei-me. Despertar num domingo de Janeiro com o telefone e quando atendo é você. Que alegria!

— Que tal um café expresso lá na cafeteria da praça?

— Já indo!

— A família ainda dorme, é o momento certo. Vamos ao nosso café expresso e ainda trago pão.

— Já estou no portão. É questão de Zás - Trás!

— Rospo! Num instante estou aí.

— Virá de carro?

— Domingo de Janeiro? Carro? Vou a pé, meu querido!

— Espero. Então, faz assim: vou caminhando na sua direção e nos encontraremos no meio do caminho.

****
— Rospo!

— Querida, um abraço!

— Pronto, Rospo, já me abraçou. Rospo? Rospo?

— Sapabela, estou tão feliz com essa sua ideia de um café expresso na praça.

— De vez em quando é bom.

— E então, está animado com o lindão?

— Sim, antevejo 2012 abraços e algumas boas conquistas.

— Também penso que será um bom ano. Seria bom se a profecia profetizasse o fim da tristeza no mundo.

— Ainda precisa muita evolução, Rospo. A alegria é resultado principal da evolução. Quanto mais evolução, mais possibilidades de a humanidade dos sapos viver o apogeu da alegria, que é o sinal de que a felicidade ronda.

— Sapabela. Sapo evoluído é mais feliz?

— Sim, desde que a sua evolução amplie o seu olhar, direcionando-o para a simplicidade da vida.

— Evolução não é o contrário da simplicidade?

— Claro que não! Evolução é capacitação do olhar, é aprimoramento, para que ele possa contemplar com mais nitidez, mais claridade, a simplicidade, que é a residência da alegria: essa súbita manifestação da felicidade quando quer adentrar no espírito do sapo.

— Simplicidade seria uma necessidade de aprofundamento, de aprimoramento da coisa em si?

— Não! O que é simples está entrelaçado num emaranhado de complexidades que não interessam ao olhar imediato.

— Pode esclarecer um pouquinho?

— Ora, Rospo! A flor que desabrocha, o sorriso da criança, a sapinha crescendo e seu rostinho traduzindo novas belezas, a amizade sincera... O sol nascendo, a chegada do anoitecer, um beijo na boca da noite, um acalanto, uma palavra terna de analgésico para a alma... Uma caminhada na calçada, a chuva que retorna, os anterozoides, a...

— Entendi, Sapabela. o que é simples não tem jeito. Que tal hoje um filme, em casa mesmo? Um bolo de cenoura...

— Quem faz o bolo, Rospo?

— Faremos, Sapabela.

— Bravo!

— Trago as cenouras, e o açúcar.

— Danadinho. Eu faço sim, gosto de fazer bolo de cenoura. Mas, qual o filme?

— Depois escolheremos. Sapabela, chegamos à cafeteria. Sinta o aroma no ar.

— Rospo. Sinta também o aroma do pão que vem da padaria ao lado.

— Veja as sapas que passam, a cadência do andar.

— Veja os sapos, alguns parecem pensativos. Outros, tão distraídos.

— Obrigado pelo convite, Sapabela.

— Estar com você é tecer o domingo, meu caro amigo.

— Yupiii!

— Aconteceu alguma coisa?

— Não, seu balconista. Às vezes, ele fica assim eufórico.

— Está acontecendo, meu amigo. O domingo está acontecendo. Vê?
 



15 de março, 2012
Ano 15 - N° 778