LEVE SUA MÃE



—  Que culpa tenho se sou uma festa de viver?

— Rospo, a palavra "culpa" não existe em nosso vocabulário.

— Verdade, Sapabela. Foi um erro meu pronunciar uma palavra inexistente.

— Mas entendo o que sente. Essa festa de viver precisa ser plenamente justificada, às vezes. A felicidade é um dom ou uma circunstância?

— Ser feliz é desentulhar os porões da mente. Lavá-la, esfregar o mais que puder com a água límpida do riacho.

— Que riacho?

— O que lava os olhos, a alma.

— Sei, o riacho da poesia. E o que é a poesia, Rospo?

— Está muito perguntadeira, Sapabela!

— Gosto de brincar de "entrevistas". Já fazia isso quando era uma sapinha. Vivia perguntando para as coisas porque elas eram da forma como se apresentavam. Certa vez perguntei a um gafanhoto chamado "esperança", por que ele era verde e daquela forma, tão bonito, tão elegante e simétrico.

— E ele respondeu?

— Não, Rospo, ele saltou. Pulou para outro galho.

— Estava mais interessado em viver.

— Sou feliz por ter um amigo que é uma festa de viver. Conheço muitos sapos tristes. E melindrosos.

— Verdade, às vezes, por um pequeno detalhe desfazem até uma amizade.
Não creio em amizades desfeitas. E quanto aos detalhes, não se que esqueça de que cada tem a sua importância. Sapabela, hoje é o "Dia das Mães".

— Verdade, lembrei do poema de Cristina Rosseti. Aprecio o verso que você gosta: "Ninguém nunca amou minha alma peregrina". Uma coisa que penso é nas canções que narram a trajetória da mãe. Muitas são trágicas. Lembra do "incêndio no rancho"?

— Com efeito. Nem precisamos de canções trágicas. A mãe sempre será comovente. Veja que a sociedade prioriza a mãe, claro que muitas vezes, só na legislação, pois na vida real, mulheres são agredidas de várias formas, não apenas em certas letras musicais. Também nas filas, e no cotidiano.

— Verdade, mas enquanto ideal, a mãe é a prioridade sempre. E vê como certo a mãe ser idealizada?

— A mãe autêntica é idealizada pelo gesto amoroso do ser. O rosto em prantos de uma mãe é o símbolo maior da estupidez de qualquer guerra.

— Rospo, o que faria se tivesse sua mãe hoje?

— Eu a levaria ao centro da cidade.

— Downtown?

— Sim.

— Uauauau!

— Bem seja.
 



25 de maio, 2012
Ano 15 - N° 788