CONSIDERAÇÕES SAPABÉLICAS



— Rospo, às vezes você é exagerado nas emoções.

— O que está tentando dizer, Sapabela?

— Esse seu exagero é metódico? Há algo de metodológico nesse seu coração exagerado?

— Talvez o rio esteja muito estreito.

— E você precisa então atrair as atenções sobre determinadas coisas.

— Se estou entendendo os meandros dessa conversa, creio que talvez seja por aí.

— Trata-se então de emoções metódicas.

— Não exatamente, Sapabela.

— O que é, pois, exatamente?

— Minha alma vai junto.

— Disso eu tenho certeza, meu amigo. Mas precisa compreender que o pressuposto espinosista de repartir a felicidade, não cabe no mundo hoje.

— Pronto, agora é você quem exagera, Sapabela.

— Se bem que no caso em que vou citar, trata-se de repartir a tristeza. O fato de chorar com a morte de um sapo cantor sertanejo de quem gostava.

— Espere um pouco, Sapabela, nem se trata de "você gostava". Trata-se da importância do referido sapo para a consolidação de um certo sentir melancólico da alma cabocla, essa mescla de lusitano com africano.

— Rospo! Será assim mesmo?

— Sim, mesmo na alegria do batuque, mesmo nos cantos africanos, há uma melancolia que refere-se aos mais puros e dolorosos sentimentos.

— Entendi, não estamos no universo do "gostar" apenas.

— Exato.

— Mas será que acredita mesmo que seus sentimentos sejam assim compreendidos? Trata uma tristeza dessas como se estivéssemos diante da morte de um astro do rock, que movimentaria a mídia de tal forma... Veja, abri hoje um dos principais jornais do país, e veja que no canto esquerdo, lá embaixo, na capa, apenas um pequeno quadro, ou chegou a pensar que teríamos uma manchete? Tem coisa que interessa mais à imprensa, como a queda dos juros ou o pronunciamento de algum político candidato. Essa referência estética que você busca está ultrapassada. Talvez deva ser interessante guardar certos sentires, e se expôr menos.

— Estou entendendo essa sua cutucada, tem algo de profundo nela, Sapabela. Está tentando me dizer algo.

— Sim, Rospo. Estou tentando dizer é que às vezes podemos sofrer algumas decepções. O mundo está ligeiro hoje, é regido pela mídia. As engrenagens não suportam expansão de sentimentos. Tudo é muito veloz, e às vezes também o seu sentir está relacionado à sua história, às suas circunstâncias.

— Compreendo, Sapabela. E agora, que tal?

— Já topei.

— Nem falei!

— É o sorvete, não é?

— Iupiiii!

— É ele.



25 de maio, 2012
Ano 15 - N° 788