AS AMIZADES DO SAPO


—  Sapabela, lembra de quando nos conhecemos?

—  Claro, Rospo, como poderia esquecer? Você fez um escândalo quando me viu saindo da floricultura.

—  Foi a primeira vez que vi uma flor fugindo da floricultura.

—  Seu bobão.

—  Verdade, Sapabela. Não é todo dia que se encontra uma flor andando.

—  E aquele dia na loja de brinquedos? Você saiu berrando, fazendo um escarcéu, alvoroçando a criançada que estava lá.

—  Também pudera! Eu tinha que gritar. Jamais havia visto uma boneca que andava. E para as sapinhas aquilo era uma novidade e tanto. Além de andar, era tão charmosa e elegante...

—  Pois saiba que jamais serei boneca. Viu?

—  Naturalmente, Sapabela. Eu só queria chamar a sua atenção.

—  Precisava tanto barulho? Não poderia ter se aproximado de um jeito assim, mais discreto, mais suave? Mais cavalheiro? Um olhar, um sorriso.

—  Talvez tenha razão.

—  Claro, a cidade inteira se ajuntou naquela calçada em frente à floricultura.

—  Mas você me deu atenção.

—  E tinha outra opção?

—  Mas a nossa amizade nasceu. E hoje fico pensando: ela não morre, não é?

—  Amizade não morre. Não está em seu estatuto morrer.

—  Será?

—  Quando morre, é porque não era amizade.

—  Mas pode ter uma falsidade, uma traição. Lembre-se: só o amigo trai.

—  Acontece que a amizade não residia nos dois corações. Um era amigo, e o outro não.

—  Amizade hoje é artigo de luxo, não é?

—  Está surgindo um novo conceito de amigo...

—  Sei, nas Redes Sociais.

—  Rospo, você é saudosista?

—  Não, não exatamente, Sapabela. Apenas preservo o que é bom demais, aquilo que precisa ser preservado. Assim é nas artes, na Música, na Literatura, e também as amizades.

—  É verdade, suas amizades duram em média duas ou três décadas. Tem umas de quatro décadas.

—  Algumas duram desde que eu era um sapinho.

—  É?

—  A amizade com o riacho, com os bichinhos, com...com o gibi, com a Lua... Aliás, com a Lua selei um pacto de amizade na noite de julho de 1969. Naquela noite compreendi que a Lua seria sempre, através dos tempos, a "testemunha tão vulgar", dos poetas, dos amantes, dos namorados... E continuaria a encantar os sapinhos, quando surgisse, de queijo, na vidraça da janela... ou na página de um livro infantil...

—  Mas estou falando das amizades com os sapos.

—  Essas realmente já duram três décadas, em média.

—  Coisa boa. E a nossa continua numa fortaleza.

—  Fortaleza?

—  É, numa casa azul.

—  Yupiiii!

 

22 de junho, 2012
Ano 16 - N° 792