|
CHOCOLATE E ANIS
— Sapabela!
— Rospo! Que alegria vê-lo, e que frio!
— Frio e chuvisco, Sapabela, isso pede um chocolate quente...
na manhã, e um vinho à noite.
— É mesmo! Bem, estamos na manhã.
— Topo!
— Rospo, a vida é uma maravilha diante dos nossos olhos. Somos
privilegiados por esse encontro.
— Para aonde estava indo, Sapabela?
— Para o nosso chocolate. Nenhum encontro acontece ao acaso,
nem mesmo no ocaso.
— Sapabela, gosto de brincar de jornalista.
— Você não brinca, você é, meu amigo.
— Vamos fazer uma brevíssima entrevista?
— Vamos, posso começar com a primeira pergunta?
— Não, sou eu que vou entrevistá-la.
— Então diga, meu rei, mas, por favor, só quando chegar o
chocolate quente.
— Você ama alguém, algum sapo?
— Rospo, você sabe, eu sou bem estabanada e já andei metendo
os pés pelas mãos e faço uma algazarra em meu coração.
— E então?
— Para mim o momento é o agora, sempre, adesso, compreende?
— Sim, o momento vivido é aquele que realmente importa.
— Sim, nessa coisa de amor, sou meia atrapalhada, mas,
acredite, amo intensamente, sempre.
— É romântica?
— Como você, igualzinho.
— Compreendo.
— Sou meu próprio caleidoscópio, sou a minha própria
reorganização permanente. Sei que nem sempre as coisas são como
queremos, mas não abro mão de algo: somos, cada um de nós, o desejo.
É o desejo que nos move a vida, que organiza o rosto do universo. O
sapinho que quer um brinquedo, um sorvete, a sapinha, um brinquedo.
Todos os brincos são especiais quando se tornam desejos. Assim é a
minha palavra argentina.
— Não se usa mais esse termo, palavra pratinha, caiu do
vocabulário. Nem faz parte mais da memória popular.
— Eu sou desejo!
— Estávamos falando de amor.
— Bem sabe, meu amigo provocador, que são inseparáveis. Aliás,
amor e desejo são mais do que irmãos.
— É verdade. A amplitude do desejo é uma imensidão. A palavra
é altamente semântica.
— Depois do chocolate quente, anis.
— Licor?
— Pensei num drops, mas o frio disse licor.
— Sabe, Sapabela, você é estabanada, é uma sapa feliz, alegre,
de bem com a vida. Você é feliz?
— Absolutamente. Sou um temporal radiante de alegria. Um risco
fulgurante de anterozoides cortando o azul, sou uma constelação de
espantalhos resplandecentes. Sou a alegria de participar da vida.
Participo de tudo, desde a hora em que sou brindada.
— Brindada?
— Acordar, Rospo, despertar! Isso é brinde, um brinde que
recebemos a cada nova alvorada. Sou integralmente eu, com meus
anseios, minhas paixões, meus temores, e minhas explosões de
alegria. Estou na poesia, no verso cortante, e na glorificação da
vida. No mais puro canto de amor, nas confissões dos amantes, no
sorriso autêntico de cada adolescente, e na voz do sapo que amo em
segredo.
— Mesmo se o coração está sofrendo?
— Principalmente assim. Sempre que estou em apuros de mágoas,
de ressentimentos e de dores no coração, recorro ao mais eficaz
remédio para me curar, e sigo em frente.
— Que remédio?
— Eu, a Sapabela! Sempre procuro por mim, e então, ela me
devolve a alegria, e sigo em frente. Você sabe, minhas roupas não
combinam, sou estabanada, sou até atrapalhada, mas sou tão feliz,
que só posso gritar a minha gratidão: Um beijo, Sapabela. Obrigado!
— Você é um amor.
— E tem mais: tomar um chocolate quente e um licor de menta
numa manhã chuvosa de sábado com um amigo é tudo o mais. Não abro
mão disso.
— Anis, meu bem.
— Menta é uma sugestão para o próximo encontro. Você sabe,
minha propaganda subliminar é sempre por demais explícita.
— Eu também agradeço a Sapabela que há em você, querida. Já
leu o jornal hoje?
— Ainda não. Vamos buscá-lo? Aqui na galeria tem uma banca.
— E, só pra terminar, e se o amor não deu certo?, e se você
não se sentiu correspondida?
— Rospo, meu querido. Príncipes também são puras
circunstâncias. Quem disse que o amor não dá certo? Ele sempre dá
certo! Ele goteja o seu brilho na sutileza da vida. A vida tem duas
almas: ela é brusca, mas é delicada, tudo ao mesmo tempo. Essa é a
graça do artista, o artista que somos, o que viceja em cada um,
desde que éramos garatujas do sentir.
— Como assim; o amor sempre dá certo?
— Ele apenas nos diz: tudo irá se ajeitar.
— Muito bem. O que lê primeiro no jornal?
— Os quadrinhos, naturalmente. Depois, a programação do
cinema...
— Cinema? Yupiiii!
— Qual filme, Rospo?
— Hoje é você quem escolhe.
— Sempre sou eu quem escolhe.
— E sempre acerta. Mas, só um detalhe. Hoje não é sábado. É
quinta, feriado.
— Rospo, chocolate quente, licor de menta, quer dizer, anis
hoje, um amigo jornalista, que brinca de ser o que é, vasculhando a
minha alma inquieta, essa alma de arlequim, de girassóis, é tudo de
sábado. Que hora o cinema?
— À tarde.
— Jornaleiro! O jornal de sempre. Rospo, o filme é sobre
Violeta Parra.
— Ler o jornal ao seu lado? Yupiiii! Violeta Parra? Yupiiii!
— Rospo, esse Yupiiii! Yupiiii! está me levando pela vida
afora.
22 de junho, 2012
Ano 16 - N° 792
|