O CHAMAMENTO DA LITERATURA


—  Rospo, estive pensando: o filósofo é um ser para a vida, não é?

—  Sim, um ser para a felicidade.

—  Como seria o mundo se Epicuro tivesse vencido, em vez de Platão?

—  Boa pergunta, Sapabela.

—  E a boa resposta, Rospo?

—  "Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades."

—  Que mais, Rospo?

—  "Não temos nada que temer aos deuses."

—  Qual é para você o filósofo da felicidade?

—  Espinosa.

—  Sofreu muito.

—  Que encanto a sua vida!

—  Acredita em outra possibilidade para a filosofia?

—  Não. Só a felicidade. Se a filosofia não causar alegria no ser, não terá cumprido a sua essência. Os momentos de tristeza da humanidade foram momentos de afastamento da alegria da filosofia.

—  A filosofia tem uma irmã?

—  Tem, a literatura.

—  É possível afirmar que a literatura é também alegria e felicidade?
—  Sim.
— Mas tem literatura que nos leva à reflexão, e outras que abordam questões tristes...

—  Por isso mesmo.

—  Esmiuçando, por favor.

—  O leitor apaixonado fica feliz diante da reflexão. Esse é o bem maior da literatura. Assim, dessa forma, veja só: mesmo quando a literatura expor situações de tristezas e infortúnios da humanidade, estará regando o espírito do leitor.

—  Gosta da palavra espírito, não é, Rospo?

—  Sanchoniaton!

—  Isso é uma gíria nova?

—  O "espírito" não tem aqui nenhuma conotação religiosa. É a palavra em seu sentido filosófico.

—  Verdade que ganhou um livro de Goethe de presente de aniversário e nunca leu?

—  “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister”. Mas li pelo menos umas cem páginas.

—  Pretende ler o livro inteiro, Rospo?

—  Pretendo, Sapabela, só não sei quando.

—  Sobre a literatura eu pensava que só a infantil fosse sinônimo de felicidade.

—  Nada, menina!

—  Nunca me chamou assim. Gostei.

—  Eu também, Sapabela. Veja só: às vezes sinto uma felicidade estranha. Essa felicidade estranha é a literatura. Quando Montaigne falou que na biblioteca estão os melhores espíritos, os espíritos encantados da humanidade, ele se esqueceu de dizer que esses espíritos estão com você, em você quando subitamente sente uma vontade inexplicável de reler um livro.

—  Uma das maiores tragédias da humanidade foi o incêndio que destruiu a biblioteca de Alexandria. Como será no futuro, se as bibliotecas, dizem, serão todas virtuais? Estarão preservados para sempre o tesouro infinito? Mas fale da vontade inexplicável.

—  Sim, repentinamente surge aquela vontade de reler um livro, de Jorge Amado, por exemplo, como Jubiabá...

—  Felicidade pura.

—  Ou "Memórias de minhas putas tristes", ou "Tia Júlia e o escrevinhador"...

—  Como você explica isso?

—  É o chamamento da literatura.

—  Chamamento da literatura?

—  Acredite! Quando você está em certas circunstâncias cotidianas a literatura a chama.

—  A poesia sempre pisca pra mim.

—  Pois é, esse chamamento é um mecanismo de defesa interior da mente, que busca, sempre, a felicidade.

—  Rospo, e eu comecei falando de filosofia.

—  Dessa irmandade não escapamos, Sapabela.

—  Vamos ao nosso chocolate expresso?

—  Sim, vamos, esse é o chamamento da amizade.

—  Só me faz rir, Rospo.

 

06 de julho, 2012
Ano 16 - N° 794