O SAPO E O PARAÍSO


—  Rospo, a vida foi feita para a felicidade.

—  Pleno, Sapabela, pleno! A vida jamais se beneficiará da tristeza.
A tristeza talvez seja apenas a necessidade do equilíbrio, porém, pela sua razão corrosiva da alma, deve ser afastada de imediato.

—  Se tivesse um paraíso!...

—  Tem!

—  Onde está? Onde está?

—  No único lugar onde tem sentido a sua existência.

—  Rospo, vá com calma.

—  Só velejo na calma. Aprendi o azul desde cedo.

—  Mas também adora temporais.

—  Não me recuso à aventura de viver.

—  Porém, diga que lugar é esse, no qual o paraíso pode ser encontrado.

—  É tão óbvio que os leitores já sabem.

—  Adoro metalinguística.

—  Eu também.

—  Mas, não enrole, Rospo! Diga logo onde é o lugar do paraíso.

—  Dentro de você.

—  Dentro de mim?

—  De cada um de nós.

—  E como faço para viver nesse paraíso, Rospo?

—  Para fazer é preciso desfazer.

—  Que papo é esse, amigo?

—  Desfaça a ideia de paraíso como um lugar sem vida, só gozo...

—  Rospo, mas já sou um feixe luminoso de lutas que travo a cada dia...

—  O paraíso que está em você pode se chamar recompensa. E isso quer dizer: não apenas gozo, no sentido do gozo improdutivo.

—  É muito pra minha cabeça, Rospo.

—  Estou querendo dizer que existe o gozo produtivo. Ou seja, um lugar onde você possa ler, compor, escrever, montar um teatro, realizar coisas, não apenas no universo da arte...

—  Tudo isso dentro de mim?

—  A fonte primária de todo evento está dentro de você.

—  Tudo bem. Mas então você está subvertendo o conceito, a ideia original de paraíso?

—  Se você se torna habitante desse paraíso só para gozar, sem produzir... Esse perde o seu sentido, até como metáfora.

—  Rospo.Por tudo que eu estou tentando entender, então o paraíso pode valer a pena?

—  Considerando que "valer a pena" pode significar que vale ser escrito, creio que sim. Então, se quer conhecer o paraíso, que está em você, comece a edificar mundos, produza, e verá como será feliz.

—  Rospo, preciso ir, mas levo essa conversa comigo.

—  Gostei Sapabela. Todos os sapos deveriam fazer isso: levar a conversa consigo.


 

13 de julho, 2012
Ano 16 - N° 796