A FANTASIA TERRÍVEL


—  Sapabela, hoje cedo andei pensando numa fantasia que muitos usam como adereço...

—  Que fantasia, Rospo?

—  A soberba presunção, a vaidade exacerbada. Essa vaidade não passa de lantejoula da alma, pura lantejoula, uma pedra de falso brilho.

—  Continue, meu querido.

—  Lantejoula do Ser, não lanterna...Quem veste essa fantasia dificilmente dela se separa, jamais a descarta, e passa a viver numa eterna passarela onde se julga a estrela principal, mal sabendo que está num despenhadeiro...

—  Um lugar elevado...?

—  Um precipício. Assim é o despenhadeiro, Cria em si, de si, uma ilusão, pois pensa o Ser estar numa elevação, quando na realidade está numa queda vertiginosa...

—  Como é isso, Rospo?

—  Essa queda vertiginosa, aparentemente invisível, imperceptível para o sujeito soberbo, arrogante, ela ocorre no conceito que dele tem os amigos de coração sincero...

—  Fale mais, estou gostando.

—  Ao usar essa fantasia, que é a própria ilusão de se sentir superior, uma estrela numa constelação vazia, o sapo fica impossibilitado de se livrar do ego. E vive no desconhecimento de seu real valor, pelo qual deveria trabalhar, lutar, de forma humilde, lembrando que o conceito de “humilde” é frequentemente desvirtuado, e até acontece de muitos se desvincularem de seu amor-próprio, que é uma espécie de sentimento grandioso, também geralmente confundido com o egoísmo. Quantos adultos, quantas professoras, já, sem saber, destruíram imensos talentos e futuros brilhantes, por terem se referido a uma sapinha ou a um sapinho que tinha amor próprio, como egoístas.

—  Entendo.

—  Desse modo, o amor próprio, que pode ser resumido na valorização do próprio Ser, sem se julgar superior a ninguém, é com certeza, o sentimento verdadeiramente ilustre na vida de alguém.

—  E o que é necessário para que esse sentimento possa desabrochar de forma autêntica, ou seja, ilustre?

—  Creio que através do recolhimento, que leva ao acolhimento amoroso, que por extensão leva à generosidade. A generosidade, por sua vez, flexibiliza o ser para a compreensão de que o seu amor-próprio pode ter um caráter, uma alma de expansão universal.

—  Rospo, já encontrou muitos sapos fantasiados?

—  Sapabela, num desfile de fantasias desse tipo teríamos uma multidão de candidatos.

 

20 de julho, 2012
Ano 16 - N° 797