FALANDO DE RALACIONAMENTOS


Rospo encontra uma amiga.

—  Rospo, não consigo me entender com meu namorado.

—  O que não acontece?

—  Perguntou errado, Rospo. Deveria ser "o que acontece?".

—  Pois que seja.

—  Ele quer controlar a minha vida.

—  Terá que resolver com ele.

—  Não dá. Ele nem me ouve. Só vive falando de si.

—  Às vezes, quem não tem, fala.

—  Não entendi.

—  A falta de conteúdo, em alguns casos, força o sapo a se expor mais numa falação de léguas. Quer enfiar goela abaixo dos ouvidos o seu currículo. Lembro-de que quando participava do movimento literário alternativo...

—  Cuidado com o que vai dizer, meu querido!

—  Tinha uns colegas que publicavam nas revistas alternativas imensos e quase intermináveis currículos, nos quais, entre outras coisas, às vezes apareciam dezenas e dezenas e dezenas de entidades às quais eles participavam...

—  E daí? Sempre ajuda, não é?

—  Outros faziam diferente.

—  Como faziam, Rospo?
—  Publicavam poemas inéditos, contos. Faziam. Não desprezo o falar de si, mas sempre me apego ao ditado alagoano, "O Feito Fala".

—  Vamos voltar para o meu namorado?

—  Volte você.

—  Você me faz rir, Rospo.

—  Talvez esteja precisando disso. Rir. Rir sem parar. O riso é o maior terapêutico da alma. Se você rir de gargalhar e se deixar levar pelo seu próprio riso, quando estiver a sós, ou com uma amiga ou um amigo...

—  O que tem, Rospo?

—  Irá perceber o que falta em sua vida, ou melhor, irá perceber "o que não acontece" em sua vida com o namorado. Não acredito, sinceramente, em nenhum ralacionamento em que não faça parte o riso, o riso autêntico, o riso farto, o riso gostoso, de leveza explícita...

—  Você falou errado, meu amigo. Não é ralacionamento.

—  No seu caso é. Um relacionamento em que um atrofia o outro, que tenta anular a potencialidade do outro, em que esmaga a alegria genuína que cada ser possui, não é um relacionamento. É um ralacionameno, em que um rala o outro.

—  Rospo, devo me separar do meu namorado?

—  Nem um psicanalista deve responder isso de forma explícita.

—  Está um pouco atrevido hoje, Rospo. Mas se ninguém pode me responder, como poderei agir?

—  As respostas estão em você. Se considerar que seu "relacionamento" esmagador é benéfico, tudo bem, se considerar que ele está bloqueando e impedindo o seu inalienável direito ao riso, deverá saber o que fazer.

—  Muitas sapas sofrem...

—  Muitos sapos também, não se esqueça. Prossiga.

—  Pois bem: muitas sapas, ou sapos, sofrem, mas não deixam o parceiro. Isso é masoquismo.

—  Talvez falte o essencial. Uma conversa consigo mesmo. O tal mergulho. As coisas são simples, as convenções são seculares. Dois mil anos de sedimentos, de sedimentação, não se removem de uma hora para outra.

—  Obrigado, Rospo. Vou ter uma conversa séria com ele.

—  Espere um pouco, menina. Vai pular a primeira conversa?

—  Não entendi.

—  A conversa com você mesma, lembra?

—  É mesmo! Você tem razão. E sua amiga, como vai?

—  Sapabela? Moça! Temos um sorvete às dez horas. Tchau!

—  Corra, Rospo! Se ela ficar brava por causa do atraso, diga que foi por uma boa causa.

—  Ela não ficará brava, minha querida.

—  Uma última coisa: devo procurar um lago, para me isolar?

—  Por qual motivo?

—  A conversa comigo.

—  Pode ser caminhando na calçada, no ponto de ônibus. Onde quiser.

—  Meu namorado vai ver!

—  Sapinha. Deixe a armadura em casa, e vá para essa conversa com a alma cristalina, límpida, translúcida. O sol sempre vence.
 


10 de agosto, 2012
Ano 16 - N° 799