A MITOLOGIA DA FOTO


— Ao ver a foto antiga do artista o sapo suspirou. E a sapa também...

— Continue, amigo. Parece que começou o dia lunar com vontade de contar histórias.

— Quase todos fazem isso. Uma foto em branco e preto de seu artista causa um suspiro, e uma chuvarada de elogios e tudo o mais... Principalmente se o artista no passado lutou contra alguma ditadura...

— Igual aconteceu aqui no brejo. Muitos artistas se engajaram na luta contra a ditadura militar.

— É, Sapabela.

— Pois prossiga, Rospo.

— A foto é mitologia pura.

— Ela conserva no tempo o tempo que o tempo foi...

— Pois é.

— Não entendi esse “Pois é”...

— Então, numa “enluarada” o sapo olhou para o céu e contemplou o lugar onde as estrelas vagam...

— E daí, Rospo?

— Ele olhou para a foto e contemplou o presente.

— Isso é muito arriscado. Deveria ter ficado só com a foto.

— Pois é.

— Novamente o “Pois é”.

— Então ele soube que aquele seu artista cobrou um milhão de $ para cantar durante uma hora num noite de reveillon na praia.

— Nossa, Rospo!

— E alguns outros também fizeram isso.

— Um milhão de $ do dinheiro do sapo fã...

— Como assim?

— Secretarias de Cultura, essas coisas..., de onde pensa que vem o dinheiro?

— Pois é.

— Já que entendeu essa parte, Rospo, prossiga sem “Pois é”... Como o Sapo ficou sabendo disso?

— Um artista recebeu um valor menor e pôs a boca no trombone.

— “Saquei”... Era melhor o sapo fã ficar apenas com a foto, sem pensar nessas coisas. Isso, aliás, me fez lembrar do discurso de uma diretora numa creche...

— Sim?

— Ela dizia ao círculo de funcionárias que no passado ela lutou contra a ditadura militar...

— Ela também?

— Pois é, Pois não é.

— Engraçadinha, prossiga.

— E ela dizia e dizia que lutara contra a ditadura...

— Foi aplaudida?

— Não. Só silêncio.

— Por qual motivo a coisa aconteceu dessa forma?

— Ela é uma diretora injusta, e até opressiva, às vezes, com as suas funcionárias.

— Compreendi. Não importa o passado nesse caso, quando o presente tem a força de borrá- lo...

— Muito curioso isso, Rospo. Às vezes, um cargo muda tudo. A história da minha conhecida, a diretora, é muito parecida com a do show na praia.

— Histórias em que o passado costuma “Morrer na praia”... Isso também já aconteceu com uma artista que fez propaganda de uma certa loteria, e outra que fez de cerveja, e outro astro internacional com passado mitológico, que cobrou uma valor altíssimo de $ para o seu show...

— Rospo, talvez o melhor seja o sapo ficar apenas com a foto, suspirando para o passado...


17 de agosto, 2012
Ano 16 - N° 800