O TEMPO QUE O SAPO TEM


— Rospo, como está o seu tempo hoje?

— O tempo é relativo para todos...

— Eu sei, amigo. É uma das poucas “relatividades” que aceito.

— Incrível como você combina comigo!

— Por isso somos amigos. São os iguais que se atraem...

— Tem sapo que prega que os diferentes se atraem...

— Equívoco, mas fale do tempo... Quanto vale o tempo? Ou melhor, qual é a moeda do tempo?

— A moeda do tempo é a consciência, é a percepção da vida vivida ou desperdiçada, é a garantia de que temos um tesouro precioso que não podemos deixar escorrer entre os dedos...

— Mas disse antes que é relativo... E aquela “lenda” de que tempo é dinheiro?

— É uma invenção do capitalismo que deve ter surgido com as primeiras máquinas da revolução industrial. Trata- se de um provérbio para justificar a exploração e a escravização do Ser...

— Compreendo. Há diferentes tipos de tempo?

— Naturalmente! O tempo na televisão tem um valor diferente. Se você está numa “pousada” ao léu, num dia lindo de brilhar, o tempo se espreguiça...

— Ou se estamos na padaria Rubi com nossas conversas...

— Claro! Mas o tempo na televisão vale ouro, para usar uma expressão antiquada...

— Diga quanto ele vale e por quê...

— Ele vale por atingir uma quantidade maior de sapos ao mesmo tempo, pelo seu poder de difusão instantânea...

— Principalmente...

— Isso mesmo. Principalmente no horário de campanha política...

— Deveria valer menos. Muitos sapos atualmente fogem para a música, para o Facebook...

— Mas ainda vale muito... E seu preço é alto, todavia.

— Qual é o preço do tempo na TV? Dê um exemplo.

— Às vezes, um ou dois minutos pode fazer você perder a sua alma...

— Do que está falando, Rospo?

— São minutos que têm um preço exorbitante e devastador...

— Sim?

— O preço pode ser uma feijoada na casa de um adversário... Com direito à fotos...

— Realmente, o tempo é para uns algo por demais valoroso... Outros o desperdiçam... E você está com tempo hoje?

— Sapabela, nem imagina o que tenho de compromissos!...

— Nem para um sorvete?

— Sorvete? Yupiiii!

— Sem escândalo, por favor! Vou indo, já que não tem tempo...

— Sapabela! Tenho tempo de sobra...

— Mas disse...

— O seu convite, Sapabela, abre uma fresta no tempo, desnorteia Cronos... Vamos ao sorvete, que o tempo está passando.

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17 de agosto, 2012
Ano 16 - N° 800