A NECESSIDADE DA DISTÂNCIA


— Quando você está muito próximo de um grupo ou dentro dele...

— Quando vive em circunstâncias no meio de um grupo...

— Quando está muito perto...

— Vá em frente, Rospo...

— Os seus amigos, os seus colegas... pensam e julgam que você é igual...

— Por acaso não somos todos iguais, Rospo?

— Esse é um pensamento metafísico, de certa forma.

— Diga melhor.

— De acordo com a natureza, somos de fato iguais. Porém...

— Esse “porém” do sapo é problema, e às vezes, a solução.

— Porém, culturalmente não somos iguais... E nem politicamente... Veja só, poderíamos dar alguns exemplos chavões... Não me sinto igual e muito menos companheiro, e menos ainda irmão de algum torturador ou algum político corrupto...

— Entendo. Mas, redirecione para o seu papo original...

— Conheci uma menininha muito talentosa...

— E?

— Que vivia num grupo...

— E?

— Eles a julgavam igual ao grupo inteiro...

— Curioso...

— Nem tanto.

— Ela era talentosa... Isso é fabuloso!

— Aprecio esses termos... Fabuloso, “Nos trinques”...

— Nos drinques?

— Nos trinques, Sapabela! É uma expressão antiga, como “formidável”, e “fabuloso”.

— O que está na fábula é fabuloso. Continue com a sua fábula.

— Não é fábula, tem menina na história...

— Mas a menina, no nosso caso, é uma sapinha.

— Você aprecia me confundir, Sapabela.

— Emaranhar.

— Pois bem, Se você está num grupo de colegas, você é sempre necessariamente tido como igual... O grupo sempre puxa para a igualdade... Pensamento de rebanho... Entendeu?
Talvez haja no grupo muito cisco, muita poeira causada pela “proximidade”, e sendo assim, a menina “fabulosa”, precisa da distância. Estar fora do eixo, do centro do grupo... Estar nas bordas, ou, preferencialmente, ausente, e distante do grupo. A distância, no caso, é benéfica. A distância é curativa da cegueira grupal...

— Nossa!

— No grupo geralmente se encontram as condições germinativas ideais para o ciúme, o despeito, o descaso, a inveja...

— A menininha no grupo está isolada, está sozinha...

— Sim, é necessário que a lucidez traga a distância.

— O que aconteceria, então?

— Na distância, os olhares não estarão mais nublados... Estarão límpidos, e transparentes... A distância é energizante da boa vontade...

— Mais clareza, por favor.

— A distância limpa o olhar, lava o olhar...

— O olhar fica polido.

— Assim, com a sapinha na distância, o grupo irá reconhecer o seu talento... Ela finalmente poderá se destacar, pelo seu trabalho, pela sua criação, pelo seu talento...

— Rospo, ao afirmar que a sapinha é diferente, e essa diferença só é notada ou ressaltada ou verdadeiramente aplaudida quando ela está na distância, você está supondo que ela seja superior?

— Jamais, Sapabela. Não há uma centelha desse pensamento bobo em mim. Ninguém é superior por ser diferente, mas todos têm o direito de ser a diferença.

— O grupo também é benéfico em alguns casos, não é?

— Sim, no corporativismo, e também nas reivindicações políticas e sociais... Um milhão de assinaturas contra a carestia, por exemplo, produz um efeito... O grupo é bom quando o interesse coletivo prevalece...

— Compreendo, mas quando está em jogo o interesse individual, de alguém que necessita se expressar através de sua arte, a distância é necessária... A arte sempre beneficia o coletivo, não é?

— A arte é feita para o individual...

— Uma peça de teatro é apresentada para um público imenso, uma pintura exposta numa galeria está para os olhares do coletivo, da multidão...

— Engano, Sapabela.

— Uauauau! Adoro me enganar!

— Começou novamente com isso?

— Vamos lá, lá lá lá, continue.

— No fundo você é uma cirandeira.

— Circense. Amiga da cigana do realejo.

— Sapabela... Minha amiga!...

— Prossiga, meu rei.

— Começou com tudo na semana, minha querida. Pois bem: é puro engano pensar que a arte é direcionada para o coletivo. Ela é sempre direcionada para o coração que está na multidão. Ela sempre quer atingir o indivíduo. Por isso a arte transforma a sociedade. Por isso ela modifica o pensamento da multidão, pois ela transforma primeiro o coração de alguém, e só o indivíduo transformado pela arte poderá contribuir com as mudanças na sociedade.

— Não é só a arte que transforma, Rospo. A Educação também.

— Consegue pensar numa Educação sem arte? Uma pitadinha que seja de arte?

— Rospo, não havia pensando nisso. Bem, a semana já começou. Estamos no dia lunar.

— Aceito.

— Moça! Por favor, dois anis.

— Yupiiii!

— Realmente, realmente, a semana já começou.
 


07 de setembro, 2012
Ano 16 - N° 803