Uma grande
ameaça
Cresce a
incidência de diabetes no mundo,
mas muito pouco se investe para prevenir a
doença
Em 1985, a Organização Mundial de Saúde (OMS)
calculava o número de diabéticos no mundo em cerca de 30 milhões. Em 1990, as
estimativas eram de 80 milhões. Quatro anos depois, já se falava em 110 milhões.
Para o ano 2000, as projeções indicam que aproximadamente 220 milhões de
pessoas terão diabetes. Um relatório da OMS alerta para o caráter epidêmico
da doença, cujo número de casos vem crescendo num ritmo mais acelerado que o
da população.
É o preço do progresso e da modernidade, que,
se por um lado aumentaram a expectativa de vida das pessoas, por outro também
mudaram seu modo de viver, tornando-as mais sedentárias, mais obesas,
principalmente por causa de maus hábitos alimentares.
As projeções da OMS, se já eram sombrias,
tiveram de ser revistas depois do congresso da Associação Americana de
Diabetes (ADA), realizado em junho de 1997 nos Estados Unidos, quando os
especialistas anunciaram a decisão de reduzir em 10% a taxa de glicemia que
caracteriza a doença. A mudança de critério aconteceu em decorrência de uma
série de estudos estatísticos que revelaram que indivíduos com níveis de
glicose no sangue acima de 125 mg/dl, com o tempo, desenvolviam as complicações
provocadas pelo diabetes. Antes a patologia era reconhecida apenas em quem
apresentava resultados acima de 140 mg/dl.
A conseqüência dessa mudança é a elevação
do número de portadores de diabetes tipo II, no qual estão incluídos 90% do
total de doentes. As estimativas, então, podem aumentar em até 50%, fazendo as
projeções para o início do próximo século ultrapassarem a casa dos 300 milhões
de portadores da doença no mundo.
Quando, no final de 1996, Milton Nascimento
apareceu extremamente magro num programa de televisão, houve muita especulação
a respeito de seu estado de saúde. Para acalmar os fãs, a empresária do
cantor divulgou um comunicado afirmando que Milton sofrera uma crise causada
pelo diabetes tipo II, declaração que foi sustentada pelo professor de
medicina Steve Lamm, da Universidade de Nova York, que chegou a examinar o
cantor.
Essa explicação para a aparência do artista
gerou pânico entre os portadores da doença, provocando uma verdadeira corrida
aos consultórios médicos. O telefone da Associação Carioca de Diabéticos não
parou mais de tocar, a grande maioria das chamadas para saber dos riscos de os
diabéticos ficarem como Milton.
O episódio deixou claro o elevado grau de
desconhecimento entre as pessoas que sofrem de uma doença que, para não
evoluir, depende fundamentalmente da informação e da orientação recebidas
pelos doentes. O drama fica maior quando nos deparamos com as estatísticas do
Ministério da Saúde, feitas em 1989, segundo as quais 7,6% da população com
idade entre 30 e 69 anos sofre de diabetes. Pior: cerca de 50% dos portadores não
sabem que têm a doença.
Quem são os doentes
Para saber se é diabética, a pessoa deve
fazer um exame de glicemia, que é a dosagem de glicose na corrente sangüínea.
Trata-se de um simples exame de sangue, feito em laboratório, em jejum.
A falta de diagnóstico está entre as
principais causas da evolução da moléstia até as complicações tardias
(cardiopatias, nefropatias, retinopatias, neuropatias, etc.). No Brasil, o
diabetes é a quarta causa básica de morte e a primeira de cegueira e de amputações
de membros inferiores não decorrentes de traumas. Embora seja um problema
grave, não existem dados sobre o impacto econômico e social da doença no país.
Só para se ter uma idéia, segundo o doutor
Fadlo Fraige Filho, presidente da Associação Nacional de Assistência ao Diabético
(Anad), nos Estados Unidos o custo direto do diabetes é de cerca de US$ 42 bilhões
anuais, com internações, medicamentos, tratamentos, médicos, etc. O custo
indireto – falta ao trabalho, baixo rendimento profissional, aposentadoria
precoce, etc. – representa um montante equivalente. Ou seja, os americanos
gastam por ano com o diabetes algo próximo do valor da dívida externa
brasileira. E lá, como aqui, cerca de metade dos diabéticos não sabe que tem
a doença.
Estado de abandono
Em maio de 1997, a diretoria da Anad entregou
ao ministro da Saúde um documento em que pedia estudos epidemiológicos sobre o
diabetes. Mas o ministério alegou que não dispunha de verba para cuidar dos
diabéticos. Segundo o doutor Fadlo, "nada foi feito mesmo se sabendo onde
estão esses doentes, porque existem grupos de risco: parentes de diabéticos,
indivíduos obesos, pessoas de mais de 40 anos que têm doenças cardíacas,
hipertensos, mães que deram à luz crianças grandes".
Apesar da falta de verba, nesse mesmo ano o
diabetes entrou nas metas prioritárias do Ministério da Saúde e passou a ser
considerado problema de saúde pública. A iniciativa previa que os estados
ficariam encarregados de implantar programas de educação e controle do
diabetes. Porém, segundo a doutora Laurenice Pereira Lima, chefe do Serviço de
Atenção ao Diabético do Ministério da Saúde, não houve nenhum repasse
adicional de verba federal para que as secretarias de Saúde estaduais
colocassem essas determinações em prática.
Essa situação ilustra bem a postura do poder
público no Brasil em relação ao diabetes. Ao mesmo tempo em que se afirma que
não há recursos para fazer medicina preventiva, milhões são gastos no outro
extremo do processo, quando surgem as complicações. Por exemplo, no Brasil, de
30% a 40% das pessoas que fazem hemodiálise, que é um tratamento pago
exclusivamente pela União e tem custos elevadíssimos, são diabéticos que
precisam desse atendimento porque não cuidaram da doença.
Como não se criam condições para detectar os
milhões de indivíduos que sofrem da doença sem saber nem se prepara uma
estrutura para o bom atendimento do diabético no Brasil, essas pessoas, quando
apresentam complicações e então precisam ser tratadas, vão onerar a previdência,
pois são encaminhadas para hemodiálise, sofrem amputações, perdem a visão,
são aposentadas precocemente. Segundo o doutor Fadlo, "se houvesse
investimentos na prevenção, os gastos seriam minimizados no fim, porque
sabemos que o diabético bem cuidado tem outro curso em sua vida. Por isso é tão
importante sensibilizar as autoridades quanto à gravidade do problema".
Não há dúvida de que o diabético custa
caro, mas existem exemplos de países de Primeiro Mundo, como a Itália, para
citar um deles, em que já se sabe que fornecer insulina, seringa, glicosímetro,
etc., é uma forma inteligente de poupar recursos. Lá o diabético recebe tudo
isso de graça e, ainda assim, a despesa é menor do que se fosse preciso tratar
de suas complicações no futuro.
Tratamento
Para poder se cuidar adequadamente, o diabético
precisa do atendimento e das orientações de uma equipe multiprofissional,
formada por médico, enfermeira, nutricionista, psicólogo, educador físico,
podólogo, todos com treinamento apropriado e atualizado no tratamento do
diabetes. Não é difícil concluir que pouquíssimos são os doentes que dispõem
de recursos para tanto.
O portador de diabetes deveria, ao menos, ser
cuidado por um especialista, no caso, o endocrinologista, o que na maioria das
vezes não acontece. Existem estudos que mostram que 70% desses doentes são
tratados pelo clínico, pelo cardiologista, pelo ginecologista, etc.,
profissionais que, em boa parte, não estão habilitados para tratar do diabético.
Basicamente, os cuidados com o diabetes estão
centrados em três procedimentos: dieta, exercícios e medicação. Porém, tão
importante, se não mais, quanto esses três itens é a participação ativa do
doente no tratamento. É ele, na verdade, o principal agente do processo. Para
que isso funcione, porém, é necessário que o diabético conheça a doença,
que tenha sido orientado por um profissional especializado e que tenha consciência
da própria condição.
Como seus níveis de glicose mudam dia a dia, o
diabético tem de empenhar-se para controlar a doença. Hoje o próprio doente
tem condições de fazer em casa a medição de sua glicemia e, através de um
telefonema, pedir orientação ao médico para tomar as providências cabíveis
ao seu estado naquele momento.
Atualmente é possível dizer que o Brasil dispõe
de um arsenal terapêutico tão bom quanto o que existe no exterior, assim como
dos meios de educação e controle do diabetes. Também é grande o know-how ao
alcance dos profissionais brasileiros, adquirido em simpósios e congressos
internacionais e por meio do intercâmbio de informações científicas no âmbito
das associações de médicos.
Pâncreas para quem pode
No Brasil já existe um procedimento cirúrgico
com o qual é possível obter a cura do diabético. Trata-se do transplante de pâncreas,
reservado ao diabético do tipo I que esteja em processo de insuficiência
renal. No hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo, seis pacientes que
receberam o implante de um rim e de pâncreas voltaram a ter níveis normais de
glicemia, sem precisar de injeções de insulina.
A forma como esse recurso vem sendo utilizado,
porém, já despertou o protesto de pessoas ligadas à área de saúde. Estela
Pedreira, coordenadora regional da Fundação Nacional de Saúde, órgão do
Ministério da Saúde, e presidente da Federação Nacional das Associações de
Diabetes, afirma que um grande número de pâncreas está sendo desperdiçado,
uma vez que só existe lista de doentes para transplante de rim, quando deveria
haver uma outra, específica para os portadores de diabetes que precisam do pâncreas.
Segundo ela, como do total de pacientes renais
crônicos cerca de um terço são diabéticos, ou seja, a minoria, quando o
transplante é realizado num doente que não necessita de um novo pâncreas, o
órgão não é aproveitado. Vale salientar que os beneficiários dessa técnica,
os diabéticos do tipo I, são apenas 10% dos portadores da doença. E poucos,
dentre eles, podem pagar pela cirurgia, cujo preço varia de R$ 20 mil a R$ 25
mil, mais as despesas com medicamentos, que ficam entre R$ 10 mil e R$ 12 mil.
E, mesmo para quem dispõe de recursos, às vezes o transplante não é recomendável.
É o caso de Danielle Assumpção, de 30 anos,
diabética desde os 11. Ela gasta cerca de R$ 1 mil por mês com o diabetes.
Precisa tomar três injeções de insulina por dia e já passou por três
cirurgias nos olhos, que depois a obrigaram a fazer tratamentos com raio laser.
Também perdeu os movimentos de um pé por causa de uma lesão, em decorrência
de uma neuropatia. Obrigada a fazer transplante de rim, chegou a consultar seu médico
sobre a possibilidade de também receber um novo pâncreas. No seu caso, porém,
essa técnica não era aconselhável.
Pobre diabético brasileiro
Uma das recomendações feitas pelos
especialistas reunidos no 16o Congresso Internacional de Diabetes, realizado em
julho de 1997, em Helsinque, na Finlândia, é que as pessoas, a partir dos 40
anos, façam exames anuais para verificar os níveis de glicemia. Quem tiver
diabéticos na família, levar vida sedentária e estiver obeso deverá tomar
essa providência ainda mais cedo.
Nesse congresso, os especialistas fizeram um
importante alerta, que deveria ser levado em consideração pelas autoridades de
saúde do governo brasileiro. Declararam que o diabetes já pode ser definido
como uma epidemia mundial e que os países em desenvolvimento serão os mais
afetados pela doença, uma vez que as pessoas se tornaram mais sedentárias e
adquiriram hábitos alimentares antes exclusivos dos habitantes de países
desenvolvidos. Com o agravante de que a maioria desses hábitos não é saudável
e pode provocar o surgimento do diabetes. Tanto que a Federação Internacional
Contra o Diabetes prevê que o crescimento do número de casos da doença nos próximos
anos será de cerca de 45% nos países ricos e de 200% nos pobres.
As autoridades do Ministério da Saúde
brasileiro, porém, permanecem impassíveis, a ponto de, em 1997, o governo não
ter efetuado nenhuma compra de insulina (hormônio do qual depende a vida de
muitos diabéticos), provocando desabastecimento em vários locais. Além disso,
segundo Graça Maria de Carvalho Câmara, presidente da Associação de Diabetes
Juvenil (ADJ), "o Sistema Único de Saúde (SUS) fornece apenas insulina
mista, de origem animal (suína e bovina), em vez de insulina humana, produzida
por meio da engenharia genética, que apresenta melhores resultados. Também não
fornece seringas para os dependentes desse hormônio". Como se não
bastasse, o projeto de regulamentação dos planos e seguros de saúde privados
que tramita no Congresso ameaça deixar as doenças preexistentes sem cobertura.
Para os diabéticos, isso equivaleria a uma condenação. Se pela legislação
antiga a luta desses doentes contra os convênios médicos já era árdua, com a
aprovação da nova lei eles não terão nem mesmo a chance de lutar. Segundo
Marinês Dolci, do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), de São Paulo,
"se o projeto for aprovado, a nova regulamentação fechará a única saída
de que os usuários dispunham para reclamar das arbitrariedades dos planos e
seguros de saúde, que era a Justiça. Como a própria lei vai excluir da
cobertura as doenças preexistentes, nada mais poderá ser feito para garantir
atendimento a essas pessoas".
Estela Pedreira diz que o projeto para
regulamentação dos planos de saúde elaborado pelo Conselho Nacional de Saúde,
órgão formado por 50% de usuários e 50% de prestadores de serviços dessa área,
não foi sequer avaliado. Eis aí uma demonstração do poder dos lobbies que
atuam junto ao Congresso, que já havia ficado patente quando a diretoria da
Anad, há mais de quatro anos, iniciou uma campanha na mídia denunciando os
produtos dietéticos existentes no mercado. Segundo o presidente da entidade,
"na época havia produtos que continham açúcar e outros com mais calorias
que o normal sendo vendidos como dietéticos". Foi preciso muita luta para
que as portarias do diet fossem reformuladas, tornando-se mais precisas. Depois
disso, muitos produtos, antes comercializados como dietéticos, passaram para a
categoria light, porque continham calorias.
Um longo túnel escuro
Existe cura para o diabetes? Excetuando o
recurso do transplante de pâncreas, a resposta dos médicos é "não".
Mas a doença pode ser controlada com tratamento, dieta, exercícios e injeções
de insulina. Há quem controle a glicemia com a ajuda de ervas, como a
pata-de-vaca, por exemplo. Mas a cura, mesmo, talvez ainda demore a chegar.
No final de outubro de 1997, o "Jornal do
Brasil" noticiou que pesquisadores americanos haviam descoberto que a espécie
de minhoca Caenorhadbitis elegans, que precisa de insulina para regular seu
metabolismo, poderia viver sem esse hormônio desde que sofresse uma mutação
genética identificada como Dia 16. Como os seres humanos também possuem dois
genes passíveis de sofrer tal mutação, essa pode ser uma luz no fim do túnel.
Mas, enquanto os cientistas buscam um modo de derrotar definitivamente esse mal,
a população brasileira continua contando apenas com as iniciativas de
entidades que lutam com grande dificuldade para melhorar as condições de vida
dos portadores de diabetes.
No Brasil, existem cerca de 200 associações
de diabéticos. Só no estado de São Paulo são 40, que em 1997 se reuniram
para formar a federação paulista de associações. Essas entidades, como a
Anad e a ADJ, por exemplo, são consideradas de utilidade pública e por isso
recebem uma verba anual do governo. Exatos R$ 380, que não cobrem sequer a
despesa com a documentação que lhes é exigida. Mesmo assim sobrevivem, fazem
campanhas de detecção, prestam atendimento, oferecem cursos de orientação,
lançam publicações. Para isso, no entanto, recebem contribuições espontâneas
dos associados, fazem parcerias com empresas privadas, vendem produtos para diabéticos
por preços mais baixos que os do mercado.
Nos últimos anos, entidades como o Serviço
Social do Comércio (Sesc) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial
(Senac) também vêm dando sua contribuição, mobilizando suas unidades no
estado de São Paulo para promover campanhas de detecção do diabetes e de
orientação aos portadores da doença. Nessas iniciativas, Sesc e Senac contam
com o apoio de associações de diabéticos para oferecer atividades
educacionais e informativas, fazer avaliações de riscos, efetuar testes de
glicemia. Não é pouco, mas ainda está longe de ser o suficiente para uma
população sempre crescente de doentes.
Mais do que nunca, é preciso que as
autoridades de saúde no Brasil despertem da letargia em que se encontram e
enfrentem a realidade, porque, nesse caso, a demora pode significar o
comprometimento do futuro de muitas famílias, de muitas vidas. Depois de tantos
alertas, não há mais desculpa para a falta de uma política destinada a um
efetivo combate ao diabetes.
O que é o diabetes
Antes de saber o que é a doença, é preciso
entender um pouco do processo metabólico. A glicose, proveniente principalmente
da alimentação, é o combustível do organismo, como a gasolina é para um veículo.
Ela circula pelo corpo no sangue e, para entrar nas células, precisa da
insulina, um hormônio produzido pelo pâncreas, que atua como bico injetor. Se,
por alguma razão, a insulina faltar ou não funcionar como se espera, a glicose
se acumula na corrente sangüínea. O diabetes é isso, excesso de glicose no
sangue.
A doença é dividida em dois tipos (I e II),
que são totalmente diferentes. O tipo I, também conhecido como diabetes
juvenil, é uma doença auto-imune. Ou seja, as células do sistema imunológico
do organismo liberam enzimas que atacam as células do pâncreas que produzem
insulina, destruindo-as. Quando a produção cessa ou diminui muito, o diabético
precisa tomar injeções de insulina para equilibrar a taxa de glicose no
sangue.
No diabetes tipo II, os tecidos do organismo se
tornam resistentes à ação da insulina, que não consegue fazer com que a
glicose entre nas células. Obesidade, falta de atividade física, dieta
alimentar inadequada, histórico familiar e o avanço da idade podem provocar
resistência à insulina.
Sintomas
São quatro os sinais de alerta para que a
pessoa procure um médico e faça um exame de glicemia: muita sede, muita fome,
muita vontade de urinar e emagrecimento, uma vez que 80% dos casos ocorrem com
obesos. Os riscos a que os diabéticos estão expostos são infarto, derrame,
falência renal, perda da visão, distúrbios circulatórios e comprometimentos
nervosos (perda de sensibilidade, que representa um sério risco principalmente
nos pés, podendo levar à amputação).
Fonte: SESC