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Maier Chil Sztajnberg
CONVULSÃO
FEBRIL
A crise convulsiva febril (CCF) não é
considerada hodiernamente como epilesia. É
também conhecida como "Crise
termógena" ou "Crise
hipertérmica". Ocorrem em crianças de 6
meses a 6 anos de idade, no decorrer de
hipertermia (38o ou acima), sem que
haja lesão do neuraxe. O exame neurológico e
complementares intercrise são normais.
"Quase sempre" é benigna. Desaparecem
após os 5 para 6 anos. Estes pacientes não
apresentam previamente crises convulsivas
afebris. Devem ser analisados com objetividade e
sem idéias preconcebidas. É incorreto
considerar todas as CCF como benignas, assim como
as crianças que a tiveram venham a ser
futuramente epiléticas. São rápidas.
Generalizadas (tônica, clônica ou
tônico-clônica) ou focais - em 4 a 5% dos
casos. Quando duram mais de 30 minutos constituem
o que chamamos de Estado de mal febril. A
incidência maior ocorre em crianças com menos
de 2 anos de idade (+ 70%) e predomina no
sexo masculino. Após a primeira crise, a
recidiva é de mais ou menos 35%. Estas ocorrem
com maior freqüência entre os pacientes com
história familial positiva para CCF e que
tivessem ocorrido antes dos 2 anos de idade. O diagnóstico
diferencial deve ser feito com as crises
convulsivas sintomáticas (meningites,
encefalites, metabólicas, tóxicas, etc). Em
dúvida, fazer fazer sempre raquicentese lombar e
estudo liquórico. A hipoglicemia, hipocalcemia,
hipomagnesemia, etc, podem ser a causa de CCF. O
tratamento pode ser contínuo ou intermitente. A
criança deve recorrer ao especialista
(neurologista infantil). A criança que só teve
uma CCF, dependendo da intensidade e duração,
não será tratada. Permanecerá em observação.
EPILEPSIA
- HISTÓRICO
Palavra
derivada do grego Epilambaneim (vento
anunciador).A epilepsia data de épocas priscas,
desde os primórdios da criação do planeta
Terra e recebeu diversas formas de
interpretação na dependência da época ou da
civilização onde ocorria. Passou por etapas
onde as catalogamos e interpretamos como: magia,
religião, política, filosofia e ciência.
Nossos ancestrais, numa primeira etapa,
acreditavam que a crise era como se fosse "posse
por demônios"ou "castigo dos
deuses". Em síntese, escolhiam como
tratamento trepanações cranianas com pedra
lascada para eliminar o demônio: Em pleno
século XX, em locais afastados da civilização,
acredita-se nesta concepção. Na antiga
Babilônia (2080 AC), nos papiros da época, são
detectadas referências sobre epilepsia. O
código de Hamurabi discriminava o padecente
epiléptico. No Pentateuco (números XXIV,4), os
judeus já descreviam a epilepsia. O genial
Hipócrates (460-370 AC) revela que a
epilepsia era devida à função cerebral
anormal, abolindo o conceito de doença
sagrada, aceita até então. Atribui sua
causa ao excesso de muco (baseado nos humores de
Pitágoras, que são: sangue, bile amarela, muco
e bile preta) no cérebro, o qual impediria a
entrada do pneuma - que é o espírito vital
- causando "sufocação cerebral".
Segundo ainda este pai da medicina, o frio seria
um fator desencadeante das crises o que Celsus
mais tarde, também concordaria, criando a
expressão Morbus comitialis (mal
comicial, mal que ocorria durante os comícios
que eram feitos. No século II, Arateus da
Capadócia - da Grécia - descreveu a aura da
crise epiléptica na Escola Pneumática de
Medicina Greco-Romana. Na época de Galeno
(130-200 AC) a crença popular começou a
associar o ataque epilético com alterações
lunares e os pacientes eram chamados de
lunáticos, persistindo esta idéia até o
século XVII. Na Europa medieval, como a causa da
epilepsia era atribuída a fatores mágicos ou
religiosos (possessões demoníacas), começou a
surgir a prática de exorcismos (bruxas
despontaram). Naquela ocasião havia uma mistura
e confusão entre: religião, misticismo,
bruxaria e histeria. No século XVI (1493-1541),
o médico Paracelsus associou a epilepsia com
histeria e descreveu a epilepsia como doença
contagiosa.
Somente no século XVII, William Harvey
introduz a metodologia científica em Medicina,
mas quem deu grande impulso no estudo da
epilepsia foi John Hughlins Jackson
(1835-1911) que introduziu o oftalmoscópio
em clínica e orientou o caso de sua esposa Helen
- que era epiléptica. Era prima de primeiro grau
de Jackson, e seu problema mais tarde foi
catalogado como Epilepsia Jacksoniana. Nesta
ocasião é lançada a definição de epilepsia
como sendo uma descarga neuronal paroxística. No
século XX, começou a ser descoberta a terapia
farmacológica para epilepsia (fenobarbital,
hidantoinatos, carbamazepina, benzodiazepínicos,
valproato de sódio, lamotrigina, vigrabatim e
outras). A história nos revela homens ilustres e
destacados que foram acometidos de crise
epiléptica. Entre eles, citamos: Dostoievsky,
Sócrates, Dante, Júlio César, Lord Byron,
Alexandre "o Magno", São Paulo,
Machado de Assis e outros.
AINDA SOBRE OS MITOS E TABUS DAS
EPILEPSIAS
I) Das causas.
Segundo
estatísticas mundiais, as epilepsias são mais
freqüentes nas crianças. Podem ocorrer por
causas conhecidas ou desconhecidas. Com mais
presteza, elas podem adquirir infecções
(meningites, por exemplo) ou traumatizarem o
crânio por quedas ou acidentes outros (carro,
bicicletas, trepar em árvores, etc). As crises
convulsivas podem surgir como complicações do
acometimento por sarampo, varicela (catapora),
parotidite (caxumba), etc. Outrossim, as
epilepsias podem ser um sinal (aviso) de outra
doença, como por exemplo tumor cerebral. Um
indivíduo adulto, que tem pela primeira vez
convulsão, até provas em contrário, deverá se
pensar em processo expansivo, alguma coisa que
ocupe espaço por dentro do crânio, ou seja, no
cérebro. Nestes casos fazer sempre tomografia
craniana computadorizada ou ressonância
magnética craniana para diagnóstico
diferencial. As crianças ainda podem adquirir
epilepsia ao nascer, quando a mãe durante a
gestação é acometida por infecções virais
(rubéola, citomegalia, herpes simples) ou por
protozoário (Toxoplasma gondii), que acarretará
a toxoplasmose. Crianças que nascem com anóxia
cerebral de várias etiologias, podem não ter
crises convulsivas quando recém-nato. No
entanto, elas poderão emergir anos após (5 a 7
anos de idade). Enfim, uma gama de doenças
pré-natais (durante a gestação), natais( ao
nascer) ou pós-natais (após o nascimento) podem
ser causa de futuro mal comicial. Os pais que
vêem uma crise convulsiva num filho, quando
ocorre pela primeira vez, ficam bastante
assustados, preocupados e se questionam: "a
culpa é nossa?, morrerá?, ficará com retardo
mental?, será que tem um tumor cerebral?"
Em verdade, ninguém é culpado. O menor deverá
ser analisado por um neurologista infantil,
investigado e após, orientado, permanecendo em
tratamento por alguns anos. Para que os pais
saibam, com tratamento em tempo hábil, a
medicação poderá ser descontinuada lentamente.
Em alguns casos, de difícil tratamento, o tempo
é mais prolongado. Existem crises convulsivas
que ocorrem em recém-natos, ou nos primeiros
dias de vida, que são benignas. Com o passar do
tempo, desaparecerão. No artigo sobre convulsão
febril, comentamos que a criança que só teve
uma crise não receberá tratamento específico.
Manter-se-á em observação.
II)
Preocupações com os vizinhos. A crise. Como
orientar o leigo.
É
crendice popular que os filhos do vizinho se
afastarão de seu filho por ele ter epilepsia.
Hoje em dia, sabe-se que a doença não é
contagiosa. Não se a pega por contacto. O
menino(a) inter crise é normal. O comportamento
é exemplar. São inteligentes. Em síntese: são
crianças como qualquer outra. Quando uma
criança tem uma crise convulsiva do tipo
conhecido como tônico-clônica, numa primeira
instância fica rígida, contrai a musculatura
esquelética e lisa (músculos do corpo e das
vísceras) e após entra em clonismo - se
debatendo, se contorcendo. Nesta ocasião, devido
ao espasmo na musculatura e relaxamento de certos
órgãos e esfíncteres, poderá ocorrer
sialorréia (a pessoa emite baba) ou se urina e
defeca. mais uma vez vos digo, isto não pega,
isto não se transmite. "O Santo não
baixou". Isto é tabu. Não há razão para
se contornar o local onde ocorreu a crise.
Poderá se lavar este, se houver necessidade,
apenas com o intuito de higiene. E o que fazer na
hora em que se assiste alguém com crise
convulsiva?
- Coloquem o indivíduo em decúbito ventral (de
abdômen para baixo) ou lateral. Protejam a
cabeça apoiando-a sobre alguma roupa. Desapertem
a camisa, o cinto. Coloquem-no à vontade. Limpem
a boca sem introduzir nela os dedos da mão ou
qualquer pano. Cuidado com os quirodáctilos,
pois podem ser traumatizados e em certas
ocasiões decepados (tal a contratura da
mandíbula). "Naõ usem vinagre ou água
benta." A crise cessa rapidamente e poderá
advir sonolência após a crise. Caso a crise
persista em média por 10 a 15 minutos, deverá o
padecente ser levado de imediato ao Pronto
Socorro mais próximo, onde lhe será
administrada medicação específica.
III)
O problema social de pais que têm vários
filhos, sendo um epiléptico.
Cuidado
para não traumatizar o filho que não tem
epilepsia. Não o coloque em plano secundário,
dando atenção só ao irmão com a doença.
Inter crise, como já comentamos e frisamos, o
paciente é inteiramente normal. Naturalmente,
quando a criança tem alterações congênitas ou
má formações, a família deverá solicitar
auxílio (cooperação) dos outros irmãos,
enaltecendo esta ajuda. É possível que uma
criança com Síndrome de Down (Mongolismo - T21)
possa ter também epilepsia, que na maioria dos
casos, são de fácil controle. O aspecto
ectoscópico persiste, mas são crianças dóceis
de se lidar, e um irmão bem orientado fornecerá
ajuda incomensurável. Aconselho aos pais não
ficarem apreensivos, ou com vergonha, ou com
frustrações, etc, por ter um filho epiléptico.
Lembrem-se que gênios também a tiveram e foram
excelentes músicos, escritores, médicos,
filósofos, etc. O problema deve ser ventilado
por toda a família, demonstrando que a maioria
dos casos, quando bem orientados, tem evolução
satisfatória. Na escola, inúmeras vezes, são
ótimos alunos, os primeiros da classe. Não se
os deve isolar ou superprotegê-los. Crianças
que têm crises convulsivas com grande
freqüência serão orientadas com doses maiores
de medicações específicas. Estas poderão
torná-las sonolentas ou interferirem no processo
de aprendizado. Diante do fato, o neurologista
saberá como orientá-las e equacionar os
problemas.
IV)
Exercícios. Casamento. Dirigir carro.
As
crianças poderão fazer exercícios de
educação física, sem exagero (corrida,
futebol, ginástica). Quanto à natação, no
raso e sob supervisão de professor, caso não
tenha crises convulsivas há mais ou menos 12
meses. Se o menor ainda apresenta crise
convulsiva, deverá evitar bicicletar, fazer
exercícios em barra, trepar em árvores, etc.
Sabe-se que se os dois pais são epilépticos, a
propensão de ter um filho epiléptico é maior
do que quando um dos pais o é. O fenômeno de
hereditariedade está sendo muito discutido e
colocado em pauta em inúmeros Congressos de
Neurologia e Especialidades. Com a genética em
evolução, muitos problemas serão solucionados.
Poderá existir uma predisposição hereditária.
A epilepsia não interfere nas relações
sexuais. No entanto, os parceiros deverão estar
informados quando um deles tem crise convulsiva.
Isto é de grande importância para um perfeito
entrosamento e como atuar em caso dela ocorrer
durante o ato. A mulher que é epiléptica e vem
sendo orientada com medicação
anticonvulsivante, se desejar engravidar, deverá
recorrer, pré-gestação, ao ginecologista e
neurologista. Para dirigir veículo automotriz, o
indivíduo deve estar apto física e mentalmente.
Hodiernamente, sabe-se que os acidentes
automobilísticos ocorrem com maior freqüência
com os alcoólatras do que com os epilépticos.
Um paciente com crises convulsivas só deve
dirigir se estiver sem as mesmas por um ano no
mínimo, estar sob controle do neurologista e se
for carro de passeio. Não deverá ser motorista
de táxi ou dirigir veículos pesados. Cuidado.
Acidentes podem ocorrer com conseqüências
funestas.
V)
Resumo.
Devemos
abandonar mitos e tabus. Atualmente com os exames
complementares existentes e a orientação
médica ou cirúrgica, estes padecentes têm
evolução satisfatória bio-psico-social. Não
se deve deixar de tomar medicação prescrita,
mesmo que não se tenha crises convulsivas há
meses. Alguns pais retiram a medicação sem
ordem médica. Atenção! As crises podem
reaparecer e o tratamento torna-se mais
prolongado.
Colaboração do Dr. Maier Chil
Sztajnberg
neurologista, Prof. Adjunto da UERJ
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