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Dr.Abrão José
Cury Jr.
Automedicação:
o
barato que sai caro e pode ser perigoso.
Apesar de saber que é perigoso ingerir remédios com base na
indicação do balconista da farmácia, de amigos, ou achando que os
sintomas são de uma doença que conhece ou já teve, muitas pessoas
ainda recorrem a automedicação, para economizar a consulta médica e
o exame diagnóstico. Porém, em geral, essa conduta sai mais cara. Os
remédios podem agravar doenças, mascarar sintomas, ter efeitos
colaterais danosos, ou no mínimo, servir para nada.
Existem pessoas que fazem uso de medicamentos que sobraram, sem ter
certeza de que se trata da mesma doença. Outras não sabem que a
indicação do balconista, ou de amigos, pode induzir à compra de
medicamentos sem garantia de qualidade. Outras ainda com uma única
receita médica, no mesmo dia, compram várias vezes o mesmo remédio e
o consome indiscriminadamente.
Veja exemplos de medicamentos freqüentemente consumidos sem
indicação médica e seus perigos:
Laxante - Quando consumido indiscriminadamente pode levar a
alterações intestinais. Se a pessoa estiver constipada (intestino
preso), complica o quadro e pode levar à perfuração do intestino.
Nos idosos, pode provocar desidratação e alterações metabólicas,
colocando a vida em risco. Pessoas com tumor intestinal, em geral
não diagnosticado, podem agravar a doença.
Xarope - A tosse pode ter várias causas, como infecção viral ou
bacteriana, alergia, refluxo da hérnia de hiato e câncer das vias
respiratórias. O xarope pode mascarar o sintoma, permitindo que a
doença evolua sem controle, pode piorar o problema ou não ter efeito
algum.
Antibiótico – Droga usada para tratar várias infecções, como as
respiratórias, gripes e abscessos. Mesmo que a pessoa acerte na
escolha, ao comprar sem indicação médica, pode errar no tipo e na
dosagem, levando ao tratamento errado. Além disso, o indivíduo pode
desenvolver resistência à droga e quando for realmente necessária,
não terá efeito.
Antiácido - Muito usado para combater dor de estômago, que pode ser
sintoma de úlcera, tumor, pancreatite e até de infarto do miocárdio.
O uso inadequado pode retardar o diagnóstico, comprometer o
tratamento e expor ao risco de morte.
Aspirina - Reconhecida como droga que previne o infarto, só pode ser
consumida com indicação médica, mesmo no controle de outras doenças,
porque tem efeitos colaterais importantes, podendo provocar
problemas de estômago e hemorragias. Pode ser fatal se usada para
combater a dengue.
Colírio - Sem indicação médica, a única coisa que se pode passar nos
olhos é água limpa. Os colírios têm princípios ativos variados, como
corticóides e antibióticos, podem mascarar ou exacerbar doenças e se
a pessoa tiver problemas prévios, como glaucoma, pode agravá-los.
Cremes e pomadas - Muitas pessoas cometem o erro de achar que
existem cremes e pomadas que tratam tudo, o que está errado porque
cada um tem uma indicação adequada. O uso indiscriminado pode
mascarar doenças, como câncer de pele, pode provocar dermatite de
contato, ou pode não ter efeito.
Remédios naturais - Todos os medicamentos, sem exceção, têm efeitos
colaterais e podem provocar riscos à saúde.
Vitaminas - Só devem ser tomadas quando há uma real necessidade até
porque algumas, dependendo da dose, podem provocar doenças. A
vitamina C, por exemplo, provoca distúrbios gastrointestinais e
cálculo renal. A vitamina A, quando consumida por crianças, pode
provocar hipertensão craniana.
Suplementos alimentares - Podem ter efeitos tóxicos, ou não fazer
nada. Estudos em andamento, relacionam os suplementos com o
desenvolvimento de arritmias cardíacas e com morte súbita.
Casamento de remédios - Algumas pessoas, ao acharem que estão com
gripe, por exemplo, ingerem xarope para a tosse, que piora a
secreção pulmonar, descongestionante nasal, que nos casos de
sinusite e pneumonia piora o quadro, e injeções à base de eucalipto,
absolutamente inúteis. Além disso, tudo junto pode provocar reações
alérgicas e até choque anafilático.
É importante que as pessoas saibam cuidar melhor da saúde, conheçam
o risco da automedicação, valorizem mais o conhecimento médico e o
ideal é que todos os medicamentos sejam vendidos apenas com retenção
de receita.
(17/03/2003)
Dr.Abrão José Cury Jr. é Presidente da Regional São Paulo da
Sociedade Brasileira de Clínica Médica, médico assistente da
Universidade Federal de São Paulo e cardiologista do Hospital do
Coração.
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