As dores do câncer
O número de pessoas que morrem de
câncer no mundo, anualmente, é de aproximadamente 5 milhões, segundo
a Organização Mundial de Saúde (OMS). Na Europa, mais de 20% das
mortes são devido a algum tipo de câncer. Dentre os pacientes com a
doença, mais da metade, em algum momento do tratamento,
principalmente aqueles sob tratamento agressivo, sentem algum tipo
dor. Nestas condições torna-se obrigatório o controle dos quadros
dolorosos com o objetivo de assegurar a qualidade de vida dos
pacientes durante o tratamento e nos estágios avançados da moléstia.
Para o controle dos processos dolorosos o enfoque deve ser amplo e
baseado no controle da doença com as diversas modalidades de
tratamento como a radioterapia, quimioterapia, cirurgia e
psicoterapia além da terapia específica medicamentosa contra a dor.
Em relação a este aspecto, a OMS considera que existem três degraus
ou patamares para nortear o emprego dos diversos medicamentos
disponíveis no mercado.
O primeiro degrau no qual a dor é considerada leve, preconiza-se o
emprego de medicamentos à base de aspirina ou paracetamol . Nestes
casos eventualmente podem ocorrer associações com outros
medicamentos como os anti-depressivos ou anti-convulsivantes.
Caso a dor não seja controlada e o processo persista é necessário
que os medicamento sejam mudados, sendo sugestão da OMS que a opção
na seqüência recaiam nos opiáceos mais fracos. Este é o segundo
degrau na escala da dor.
O terceiro é quando a dor é intensa, e nestes casos preconiza-se o
uso de opiáceos fortes como a morfina, que deve ser administrada por
via oral, e eventualmente associada a outros medicamentos para o
combate da dor.
A mensuração da dor é uma situação extremamente subjetiva, sendo
difícil para o médico quantificar a intensidade da dor e então optar
pela melhor alternativa de medicação. Várias tentativas de
quantificação existem citadas na literatura médica. Para os adultos
existem escalas verbais, nas quais orienta-se o paciente a decidir
entre 0 a 5 a intensidade da dor que apresenta. Existem também
outras escalas numéricas, análogas visuais, resposta a dor assim
como cartões especiais desenhados para avaliação da intensidade da
mesma. Como exemplo de um cartão da dor existente, podemos citar o
do Memorial Sloan Kettering, hospital de Nova York, Estados Unidos,
especializado no tratamento de câncer.
Analgésicos potentes no controle da dor
O número de casos de câncer continua a aumentar e o
controle da dor nestes pacientes tem de ser constante. Embora os
médicos historicamente tenham assumido que a via endovenosa e a
subcutânea sejam as mais apropriadas para o tratamento de dores
intensas, obtém-se analgesia similar com medicamentos orais.
Atualmente indica-se a terapia parenteral sistêmica seja reservada
para situações dolorosas específicas.
Em relação ao uso da medicação oral, podemos dizer que o seu emprego
faz com que exista uma redução da sensação de doença, aspecto
psicológico que normalmente acompanha o paciente que está utilizando
medicação parenteral ou injeções. Outro aspecto importante refere-se
ao fato que o paciente com medicação oral passa a ter mais
mobilidade e autonomia. Na opinião do médico Richard Patt do MD
Anderson Cancer de Houston,Texas - Estados Unidos, a opção
moderna para o tratamento da dor do câncer é a morfina e seus
derivados por via oral.
Além do uso oral de medicamentos outras vias têm sido estudadas: A
via transdérmica, mucosa oral, regionais (epidurais e intratecal),
os procedimentos anestésicos e neurocirúrgicos estão entre as
alternativas avaliadas.
A via transdérmica tem sido considerada uma alternativa promissora e
recomendada em diversos países.
Dentre os preparados para esta função citamos o fentanil que em
diversos estudos tem sido preferido à morfina. O medicamento além de
efetivo pode ser administrado de forma confortável por via
transdérmica, ou seja, pode ser administrado pela pele como um
adesivo. O medicamento desta forma fica sendo introduzido
constantemente no organismo. Os efeitos do tratamento normalmente
não são evidentes nas primeiras 12 horas após a primeira aplicação
do adesivo. Porém, paulatinamente a cada 72 horas, quando os mesmos
vão sendo trocados e o nível sanguíneo do medicamento se estabiliza,
o efeito analgésico é obtido. O adesivo apresenta várias dosagens, o
que permite um acerto da dose ou até aplicar conjuntamente mais de
um adesivo. A efetividade do medicamento e a sua forma de
administração tem sido comprovada por vários estudos clínicos que
demonstraram redução dos sintomas dolorosos e uma melhora evidente
da qualidade de vida dos pacientes. Dentre os aspectos que comprovam
melhoria da qualidade de vida está o dado que os pacientes não
apresentam tanta sonolência durante o dia e menos alterações
digestivas, como náuseas, vômitos e constipação. O sono noturno
também é menos agitado do que o dos pacientes que utilizam morfina
rotineiramente.
Como funcionam os adesivos medicamentosos
Os adesivos medicamentosos são projetados para liberarem
constantemente o medicamento que habitualmente encontra-se em forma
de geléia em um reservatório protegido, o que previne perdas do
mesmo e garantia efetiva de que o mesmo irá para o interior do
organismo. Entre o recipiente do medicamento e a pele existe uma
membrana que controla a entrada do fentanil. O adesivo transdérmico
é normalmente trocado a cada 3 dias. A sua vantagem reside no fato
de que é conveniente e confortável, pois faz com que o paciente até
esqueça da dor e de que está doente. O adesivo é muito útil para os
pacientes esquecidos e rebeldes que não se dão com outras formas de
medicamento. No entanto, como em outros medicamentos, o adesivo
transdérmico tem também seus efeitos colaterais, como constipações,
náuseas, vômitos vertigens e outros, porém os estudos demonstraram
que eles são de menor intensidade.
Neste ponto é bom lembrar que cada paciente tem a sua
individualidade e portanto uma resposta que pode não ser a habitual.
As prescrições devem ser a critério do médico assistente e o
conceito de que a dor é inevitável no câncer deve ser modificada.
Este conceito tem sido largamente estimulado pela OMS e instituições
como a American Pain Association e a Sociedade Brasileira de Estudos
da Dor. O conhecimento de analgesia deve ser difundido na classe
médica brasileira para que os pacientes não sintam dor no câncer e
tenham uma melhor qualidade de vida.