Lílian Maial
Estamos diante de alguns casos de febre amarela noticiados
amplamente pela mídia, o que vem causando pânico e corrida aos
postos de saúde, para vacinação. Isso pode causar situações graves,
pois existe uma previsão de abastecimento de vacinas para todo o
ano, com margem de folga, inclusive por se tratar de vacina
obrigatória para entrada em diversos países, porém uma corrida
desenfreada, de uma hora para outra, levaria ao esgotamento do
estoque pela vacinação de milhares de pessoas que não estariam em
risco, em detrimento das que realmente necessitam da vacina. Sem
falar nas contra-indicações formais e nos efeitos colaterais –
alguns sérios - a que muitos estariam expostos desnecessariamente,
por se tratar de vacina de vírus vivo atenuado.
A febre amarela é uma doença infecciosa aguda, de curta duração (no
máximo 10 dias), gravidade variável, causada pelo vírus da febre
amarela (gênero flavavírus), que ocorre na América do Sul e na
África, com duas formas de expressão: a urbana e a silvestre. No
Brasil, ela apareceu, pela primeira vez, em Pernambuco, no ano de
1685.
A forma silvestre ocorre, principalmente, por intermédio de
mosquitos do gênero Haemagogus e Sabethes. Uma vez infectada em área
silvestre, a pessoa pode, ao retornar, servir como fonte de infecção
para o Aedes aegypti (também vetor do dengue), principal transmissor
da febre amarela urbana. O Aedes aegypti prolifera-se nas
proximidades de habitações, em recipientes que acumulam água limpa e
parada, como vasos de plantas, pneus velhos, cisternas etc. Devemos
combater os focos de acúmulo de água, locais propícios para a
criação do mosquito transmissor da doença.
Modo de transmissão
A febre amarela é transmitida pela picada dos mosquitos
transmissores
infectados. A fêmea do mosquito pica a pessoa infectada, mantém o
vírus
na saliva e o retransmite. A transmissão de pessoa para pessoa não
existe.
Não há transmissão pelo contato de um doente ou suas secreções com
uma pessoa sadia, nem fontes de água ou alimento.
Quando há aumento de temperatura, aumenta, conseqüentemente, a
quantidade de chuvas e isso tem influência no aumento da população
dos mosquitos, que são os vetores da doença.
Sintomas
Os sintomas da febre amarela, em geral, aparecem entre o terceiro e
o sexto dia após a picada do mosquito, e consistem em: febre, dor de
cabeça, calafrios, náuseas, vômito, dores no corpo, icterícia (a
pele e os olhos ficam amarelos) e hemorragias (de gengivas, nariz,
estômago, intestino e urina).
As primeiras manifestações são febre alta, mal estar, dor de cabeça,
dor muscular, cansaço e calafrios. Podem, ainda, surgir náuseas,
vômitos e diarréia. Após três ou quatro dias, a maioria dos doentes
(85%) recupera-se completamente e fica permanentemente imunizado
contra a doença.
Cerca de 15% dos doentes infectados apresentam sintomas graves, que
podem levar à morte. Além da febre, a pessoa pode apresentar dores
abdominais, diarréia e vômitos. Surgem icterícia (olhos amarelados,
semelhante à hepatite), manifestações hemorrágicas (equimoses,
sangramentos no nariz e gengivas) e funcionamento inadequado de
órgãos vitais, como fígado e rins. Como conseqüência, pode haver
diminuição do volume urinário e até ausência de urina, além de
possibilidade de coma. As pessoas que sobrevivem recuperam-se
totalmente.
Icterícia
A icterícia é uma coloração amarelada que aparece na pele e nos
olhos, uma das características da doença. Existem formas muito leves
da doença, que não chegam a formar a icterícia. Já a febre acontece
em todas as situações.
Tratamento
Não existe tratamento específico para a febre amarela, apenas
sintomático, e requer cuidados na assistência ao paciente, que deve
ser hospitalizado, com reposição de líquidos e das perdas
sanguíneas, quando indicado. Nas formas graves, o paciente deve ser
encaminhado a uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Diagnóstico
É basicamente pelo quadro clínico e histórico do paciente,
inicialmente, pela gravidade e necessidade de tratamento imediato,
pois o exame para a identificação do vírus no sangue é muito
especifico e complexo, e leva cerca de 15 dias para ficar pronto.
Há, ainda, a sorologia, que é mais rápida.
Formas Letais
A chance de morte é muito elevada nas formas graves da doença. Mas
se considerarmos que a febre amarela tem várias formas de
apresentação clínica, a letalidade se reduz a cerca de 10%.
Prevenção
A única forma de evitar a febre amarela é a vacinação.
Vacina
A vacina é gratuita e está disponível nos postos de saúde em
qualquer época do ano. Ela deve ser aplicada 10 dias antes da
viagem para as áreas de risco de transmissão da doença.
Pode ser aplicada a partir dos 9 meses e é válida por 10 anos.
É contra-indicada em imunodeprimidos (pessoas com o sistema
imunológico debilitado) e pessoas alérgicas a gema de ovo.
Não existe a necessidade de jejum para tomar a vacina. Não há
problema de interação medicamentosa. Não é recomendável
para pessoas que estejam com baixa imunidade, por se tratar de
vírus vivo atenuado.
Para quem esteve doente, depende de avaliação médica.
Ela pode provocar reações adversas, como dor de cabeça, febre e mal
estar em algumas pessoas.
Não existem contra-indicações para a vacinação em pessoas portadoras
de hipertensão, diabetes, ou outra doença crônica que não comprometa
seriamente a imunidade. Imunodeprimidos e pessoas alérgicas a ovo
não podem se vacinar. Devem procurar orientação médica. Em caso de
não ter como evitar a permanência em áreas silvestres, a pessoa deve
reforçar o uso de repelentes.
Gestantes devem ser orientadas por seus obstetras quanto à
vacinação.
Bebês podem ser vacinados a partir dos seis meses de idade, quando a
criança reside em uma área de risco, em que há casos de febre
amarela silvestre. Mas fora dessas situações, o calendário de
vacinações indica a partir de nove meses de idade.
Segurança
A vacina assegura 100%% de imunização, após o décimo dia de
aplicação. Essa proteção dura 10 anos, mas não há problema em
repetir a vacina, caso faltem dois meses para vencer os 10 anos.
Pessoas que farão viagens internacionais e não tomaram vacina
antecipadamente podem ser impedidas de viajar, se o país para o qual
elas se dirigem exige a vacinação. A publicação da lista de países
que exigem a vacinação é atualizada anualmente na pagina da OMS e
também na ANVISA.
Se a pessoa perdeu o cartão de vacinação, ela pode ir ao posto se
vacinar. Há registros, em casos de viagens internacionais, nos
postos onde se vacinou.
Não há venda da vacina particular.
Lílian Maial é médica gastroenterologista
RJ
Fonte: Assessoria de Comunicação Social/Divisão de
Imprensa - Ministério da Saúde