Ano 11 - Semana 575





Adoçantes à base de sacarina
Pesquisa recente da Universidade de Purdue, em Indiana (EUA), indicou que os adoçantes à base de sacarina podem engor-dar mais do que açúcar. Segundo o trabalho, o sabor doce causado pela sacarina, principal edul-corante químico artificial usado em refrigerantes de baixa caloria, provoca no sistema digestivo um estímulo à ingestão de produtos com alto teor calórico. A não ingestão deles desregula o orga-nismo, que pede mais comida ou queima menos calorias. O resultado é um inevitável aumento de peso.

 

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     05 de abril, 2008
 

Epidemia de Dengue: de quem é a culpa?
 

Lílian Maial 


Há quem diga que é dos políticos, outros, do mosquito, outros ainda, da população, e até praga pelos pecados da sensualidade eu já andei lendo por aí, como responsável direta. Bem, vox populi, vox Dei, mas vamos com calma. 

Sabe-se que os casos de dengue são endêmicos em diversas regiões do mundo, e estão relacionados ao clima úmido e quente, geralmente nos períodos das chuvas. O Rio de Janeiro é a cidade mais propensa a epidemias nas épocas de chuva e calor (verão), justamente por seu clima e seus acidentes geográficos e crescimento urbano, que possibilitam o acúmulo de água onde nem se percebe que ela possa estar acumulada. E o mosquito é peridoméstico, isto é, criado em nossas casas e arredores, principalmente se desenvolvendo onde houver água parada. 

O combate ao mosquito transmissor e a eliminação dos criadouros (água parada) são a única maneira de controlar a doença e, aí, a responsabilidade recai não só sobre o governo, mas sobre cada um de nós. Se um dos lados não cumprir a sua parte, não haverá sucesso. 

Não há inseticida pulverizado na cidade que elimine os mosquitos completamente. Ao contrário, acabariam, em excesso, eliminando outras espécies, provocando desequilíbrio na cadeia alimentar, propiciando outras pragas. 

As equipes de vigilância epidemiológica atuam, usam inseticida e larvicida, porém, enfrentam inúmeros obstáculos. De nada adianta eliminar vasinhos de plantas dos apartamentos, se terrenos baldios não puderem ser visitados, ou se não se permitir que os agentes penetrem nas residências, como é muito comum acontecer. 

Por outro lado, o sistema de saúde está um verdadeiro caos há décadas, tanto que a famosa CPMF foi idealizada para suprir a falta de verba e tentar abastecer hospitais e postos com medicamentos, aparelhagem e equipes de saúde. No entanto, como bem sabemos, tal verba aparentemente também foi usada para outras finalidades, e o sucateamento das estruturas e equipes de saúde vem acontecendo vertiginosamente, com salários aviltantes, condições sub-humanas de trabalho, e responsabilidade legal e ética comprometidas, resultando na falência da prestação de assistência digna à população. 

Num momento de crise, como numa epidemia de proporções assustadoras, com óbitos e morbidade acima das expectativas, a fragilidade da Saúde aparece e apavora a população, já endemicamente sofrida. Não há médicos (e quem aceita trabalhar nas emergências, arcando com todas as suas conseqüências, por menos de R$900,00 ao mês?), não há leitos, não há vagas em CTI, não há o menor conforto, nem para pacientes e nem para as equipes. A contratação de médicos, de maneira emergencial, paga o triplo do salário dos médicos concursados, mostrando o absurdo da situação, e nada acontece. 

Tendas são montadas, militares são convocados, come-se inhame, ingere-se complexo B, usa-se homeopatia, aplica-se repelentes, perfume de alfazema, velas de citronela e andiroba, e a doença vai engordando as estatísticas, até que o clima esfrie e as chuvas passem, o outono avance e o vírus volte a dormir nos ovos dos mosquitos.
Aí as tendas serão desmontadas, os militares voltarão para as casernas, o inhame desaparecerá do cardápio, os repelentes serão guardados e as velas apagadas, mas ninguém vai conseguir apagar a dor das perdas de crianças, jovens e adultos, o sofrimento de uma doença que deixa a pessoa acamada por 10 dias, mas enfraquecida por 2 meses, e a sombra de futuras epidemias, cada vez mais graves, pela possibilidade de segunda infecção, que favorece a evolução mais séria. 

E nada acontece. 

Não há verba para a Saúde. 

Há verba para tudo nesse país, mas não há verba para a Saúde. 

Diabos! Qualquer coisa que se tenha que fazer, só se faz se tiver saúde. Sem saúde não há trabalho, não há produção, não há lucro, não há nação! 

Raios! Não precisa ser político, estudioso e pós-graduado para enxergar isso! 

Mas, peraí, a prevenção e a promoção de saúde não dão lucro, não dão voto, não dão poder... 

É, gente, é cada um por si, como no Velho Oeste. A violência já está provocando o armamento da população e o trancafiamento dentro de casa e condomínios fechados, só que as epidemias não atingem somente as áreas de risco, elas expõem a todos, ricos e pobres, aos seus efeitos, embora os menos favorecidos sempre levem a pior, justamente pela falta de assistência decente, como a que os mais abastados encontram em alguns Planos de Saúde. 

Já está mais do que na hora da população se manifestar, das entidades médicas acirrarem as reivindicações, das empresas pressionarem, das associações de bairros se posicionarem, enfim, o povo precisa forçar seus representantes eleitos a tomarem uma posição no que diz respeito à aprovação de maior verba e ações de saúde em todo o país. 

Não cabem mais brigas políticas, interesses secundários, picuinhas e partidarismo, quando vidas estão se perdendo pela inércia! 

O mosquito é miudinho, o vírus é microscópico, mas a dignidade da nação está bem menor, neste momento. 

O descaso com o cidadão, o desrespeito à Constituição – Carta Magna da nação – que diz que “A saúde é direito de todos e dever do Estado”, são imperdoáveis, e precisam urgentemente serem corrigidos, não só como forma de atenção aos que constituem esta nação, mas em memória dos que se foram por falta de um atendimento a que tinham direito.

Lílian Maial é médica gastroenterologista.


Direção
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br

 

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