01/07/2021
Ano 24
Número 1.228



 

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BHUVI LIBÂNIO




 

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Bhuvi Libânio



Em Roma, como romanos;
no Sul, tomo chimarrão.


Bhuvi Libanio - CooJornal

Estou sentada nas chinelas. Encontrei essa expressão na praia da Ibiraquera, mais especificamente, Barra de Ibiraquera, região da pequena cidade portuária catarinense chamada Imbituba. Sentar nas chinelas é o contrário de subir nas tamancas e é neste espaço que me encontro: de silêncio, paz e relaxamento. Habito, em mim.

Sentei nas chinelas e abri o livro. A última frase me fez sorrir: "sorri com essa ideia". Na verdade, acabei de começar a ler essa história. Depois da primeira frase, leio a última. Hábito. Sorri porque essa ideia me faz sorrir todos os dias quando acordo – mentira; sorrio o dia inteiro. Para mim, essa ideia é a de viver.

Existem hábitos que nos habitam pelo simples fato de serem divertidos. Outros têm função mais pragmática, por exemplo, tomar chimarrão quando lá fora o vento faz sentir que estamos escalando os Himalaias. Observe e aprenda com quem é local. Ainda não comi romanos, mas tenho tomado chimarrão com frequência, em uma quantidade inversamente proporcional aos números no weather.com.

Em Cuba, Cohiba; na Índia, chai; no Japão, na Inglaterra… Ainda não fui a esses lugares, não dei nem meio giro no mundo – como seria essa frase, se escrita por um terraplanista? –, aliás, ainda não fui além mar. Mas isso não importa.

Hoje estou aqui, de frente para o mar, sentada nas chinelas. Alugo 14,64 m
2 para morar e com eles aprendo algumas coisas. Mas, sobretudo, desaprendo muito neste contêiner amarelo, onde guardo alguns itens necessários para frequentar esta escola, inclusive meu corpo, que precisa de um canto aquecido neste "himalaia catarino". Mais do que lápis e caneta, menos (muito menos) do que o que eu tinha antes de guardar tudo no porta-malas de um carro alugado e curtir os 1.200 km do Rio de Janeiro a Imbituba, descobri que eu – repito: eu; isto aqui não tem intenção de ser nem julgamento do outro nem lição do tipo "como viver bem com menos", cada um deve encontrar seu equilíbrio – consigo e gosto de viver com poucas coisas.

Menor a casa, menor a cidade, mas muito, muito maior é o espaço, este que descubro, dia a dia e não há como mensurar. A vivência é uma diversidade de coisas, exceto fácil. Já me perguntaram, pediram para contar detalhes, investigaram meus sentimentos e só agora consigo deixar alguma coisa gotejar nesta página – os rios já correram de meus olhos e foram parar no mar.

Hoje, só quero saber de viver: conectar-me com minha espiritualidade, dedicar-me a servir o amor, a verdade, a existência, brincar com a linguagem em tarefas que me sustentarão e garantirão meu pão de cada dia – feito aqui mesmo, perto de casa, por uma amiga, ou por um produtor da comunidade – e, quem sabe, ainda viver um grande Amor humano. Quem saberá?

Água quando despejada em um recipiente assume o formato daquele espaço. Desaprendi muita coisa para aprender essa prática. Vivo agora. Sigo em frente. Quem não tem cão caça com gato; em terra de sapo, ficamos de cócoras. Somos Um. Uma existência. Viemos do Amor, a Ele retornaremos. Não! Não acredito em Deus. Eu sei que ele existe. Vi Seu rosto. Morri e renasci algumas vezes, em silêncio, em paz, no Amor que está em mim e que enxergo em você, em tudo o que há. Os olhos de Deus, espelhos, são meus também, são nossos.

Como dizia Buda: Charaiveti, charaiveti!

Nunca paro. Enquanto houver estrada, caminharei. Olho onde piso, não tento prever o que há depois da curva. Mas sempre me lembrarei de me sentar, respirar e olhar ao redor, porque é assim que me encontro, com simplicidade, compaixão e paciência. Rome ne fu pas faite toute en un jour. Capisce?

Que todos os seres possam se beneficiar da Natureza Divina.


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