01/02/2021
Ano 24 - Número 1208




Venha nos
visitar no Facebook

 

Seja um
"Amigo da Cultura"









ULISSES TAVARES
ARQUIVO

 

Ulisses Tavares



Envelhecer é soda

Ulisses Tavares - CooJornal

Não preciso ser Casanova, o sedutor, para perceber que as mocinhas me olham como velhinho, carta fora do baralho. Nem Tio Patinhas para constatar que o dinheiro me rejuvenesce aos olhos das fêmeas capitalistas sem capital.
 
Para que médico se velho é enciclopédia ambulante de medicina?

Jovem tem doença. Velho, comorbidade.

Idade traz sabedoria? Na Grécia antiga sim. Hoje, apenas submissão ao Google. Se ele falou, tá falado e ponto final.

Chamar de vovô nada tem de carinhoso. Apenas grudar um rótulo de o que você ainda está fazendo nesta terra?

O tempo presente não inclui o velho. Ele já era mesmo que ainda continue sendo.

Meu pênis uma ponte levadiça que assusta visitantes do castelo em ruínas.

Envelhecer não assusta tanto ao velho. Apavora é aos outros que o vêm como porta estandarte ambulante do que vai acontecer com todos que forem longevos.

Ninguém escreve ao coronel que nem mais coronel é.

Sozinho nascemos, sozinho morreremos. Mas o velho morre em vida, dia após dia.

Será possível disfarçar a velhice? Até que sim, mas tudo que é sólido desmancha no ar. Qualquer coroa que injetou silicone sabe disso.

As lembranças, a memória do já vivido, preenchem a velhice? Mais ou menos, afinal são apenas o que não acontecerá de novo.

Há futuro para o velho? Há. Mas falta vigor para haver.

Passatempos, grupos de apoio, o escambau de recursos modernosos para enfrentar a velhice funcionam? Sim, mesmo porque a alternativa é o nada, o sono eterno.

Se eu me sinto velho? Claro que não. Os outros, o entorno, é que me sentem assim.

O bípede humano é uma fantástica e inigualável evolução da natureza. Pena que veio com a consciência do fim como cereja do bolo.

Nenhum sonho grandioso ou ególatra caberá no mesmo caixão de um cadáver. Isso é deveras frustrante, convenhamos.

Novos tempos, novos paradigmas, novos conceitos. E onde o velho se encaixa nisso? Não se encaixa, nem a marretadas. No limite, disfarça, mas não se engana.

Antigamente, ontem mesmo, um átimo de tempo, velho era sinônimo de sabedoria, experiência, um xamã a ser consultado. Hoje é para ser varrido do caminho, poeira incômoda, espelho quebrado.

Nunca esperei viver tanto. Poeta, meus ídolos poetas se foram cedo, bem jovens embora fecundos. Baudelaire, Mallarmé, Castro Alves e tantos outros. Agora aqui estou, poetando. O que será que fiz de errado?



- Comentários sobre o texto podem ser enviados, diretamente, a uuti@terra.com.br

(1º de agosto/2016)
CooJornal nº 994


Ulisses Tavares é poeta, professor, publicitário, jornalista,
dramaturgo, compositor, roteirista e ator
http://www.uliissestavares.com.br



Direitos Reservados
É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor.